quinta-feira, 23 de maio de 2013

É proibido permitir

"O segredo de ser chato é dizer tudo."
Voltaire
 
 
E como eu estou mesmo por conta de aporrinhar, vai aí mais outra citação. Essa no corpo do texto mesmo, até porque não dá para tirar nada desta estrofe de Zé Ramalho:
 
"Já que tudo depende de boa vontade, é de caridade que eu quero falar. Daquela esmola na cuia tremendo: ou mato, ou me rendo, é lei natural. Num muro de cal espirrado de sangue, de lama, de mangue, de rouge e batom. O tom da conversa que ouço me criva de setas, de facas, de favos de mel. É a peleja do diabo com o dono do céu."
 
O debate, seja lá de que tema for, anda pobre. Na falta de argumentos, sobram sentimentos. Quando menos se espera lá estão dois lados da questão, não "divergentes" mas "inimigos". Vira um Fla x Flu, com palavras de ordem, insultos, escárnios e a questão a ser discutida vai ficando em segundo plano. Este ponto foi bem lembrado por Nelson Motta num artigo.
 
Quando eu era residente de Psiquiatria, todos os professores, sem exceção, pregavam prudência no debate sobre a questão das drogas, notadamente no que se referia à liberação. Chegavam a dizer que esta discussão não era só nossa, que mais gente opinaria, e que, mesmo que fôssemos autoridades acadêmicas, a questão era muito complexa para que tivéssemos a última palavra. Então, se quiséssemos mesmo entrar neste debate, que fosse mais como mediadores. Eram tempos em que se admitiam matizes de cinza e não apenas preto ou branco.
 
Assisti Ronaldo Laranjeira no Roda Viva. Pelo que disseram ele faz parte da turma dos proibicionistas, que por sua vez pregam a proibição da liberação das drogas. Os que pregam a liberação da liberação seriam os liberacionistas (não confundir com "liberais" porque esse rótulo soaria como grande ofensa). A bancada de entrevistadores de Laranjeira, pelo que vi, era composta de luminares do liberacionismo, com a exceção de Mara Menezes, coordenadora do Amor Exigente. Pode ser a linha editorial do programa, mas o quase linchamento do professor da Escola Paulista de Medicina ilustra bem o tom que este debate infelizmente assumiu. Uma proposta feita por Reinaldo Azevedo seria fazerem um outro Roda Vida, desta vez com um liberacionista sendo entrevistado por proibicionistas (ele tava brincando, gente).
 
Bem, as propostas para abordagem dos dependentes químicos aí na praça têm vários méritos. A parte mais polêmica, no caso da proposta do Estado de São Paulo seria a tal "Bolsa Crack" - um cartão a ser dado para a família a fim de possibilitar o tratamento do dependente. Chama "Projeto Recomeço" e é sim, uma idéia interessante desde que sirva apenas e tão somente para um recomeço - sob o risco de se tornar um novo Bolsa Família, cujos recursos tem gente que recebe há uns dez anos mas dizem que ainda não deu para recomeçar... Mas não é dessa caridade que eu quero falar.
 
Olha só: usar drogas faz mal. Tem umas que fazem mais mal que outras, ok. Também temos o álcool e o tabaco liberados, com grande custo de vidas. Certo. Mas a cruzada para liberação das drogas soa como bandeira de utopia. Algo já datado, de um tempo em que se gritava "é proibido proibir". O que temos na dura realidade é uma total falta de condições práticas para a liberação das drogas. A propósito, o termo "descriminalização" nunca coube. Neste país nem assassino que põe fogo por conta de 30 reais vai preso, que dirá usuário de drogas. A Justiça Terapêutica, a Internação Compulsória e mesmo a Involuntária já fazem parte de nosso ordenamento jurídico faz tempo. Ademais, é consenso que a patrulha policial coíbe, sim, o uso. Mas vamos colocar a camisa de um destes dois times, e portanto debater que nem torcedor. Eu me rendo:

 
O argumento que o tráfico de drogas existe só porque elas são proibidas já dá preguiça pela presença deste "só". Há tráfico de DVD´s, de cigarros de nicotina, de uísque, de notebooks, e pelo que consta são produtos liberados. A violência do tráfico de drogas é proporcional ao lucro que ele dá. Assim, os traficantes do Morro do Borel disputam mercado com os do Complexo do Alemão a fim de ganharem mais dinheiro. O melhor jeito de fazer isso, na concepção deles, é dando tiro. Fossem as drogas liberadas, os produtores devidamente regulamentados competiriam entre si da mesma maneira com que fazem hoje os produtores de cigarros de nicotina, portanto sem tiro, é isso? E quem seriam estes produtores? A Souza Cruz? A Philip Morris? Vale dizer que são multinacionais, e teriam que se haver em outras plagas com a pecha de fabricarem drogas que no Brasil são lícitas, mas proibidas pelo resto do mundo. Já é fato consumado que a Brahma, quando encampou a Antarctica, conseguiu calar a grita da Kaiser ao fomentar no Estados Unidos que a Coca Cola fabricava cerveja no Brasil. A alternativa talvez fosse uma estatal, que poderia se chamar "Narcobrás" (essa eu ouvi do professor Artur Guerra), e pelo que se projeta iria ter um grande lucro. 
Quanto aos traficantes, imagina-se que, uma vez as drogas liberadas, ficariam sem função. Bem, quanto se espera que a Narcobrás cobre por unidade de droga? A julgar pelos impostos imbutidos nas drogas atualmente lícitas, ia sair meio caro. Basta que a turma do Alemão cobre bem mais barato (escala para isso eles têm) e lá vamos nós de novo. Ainda assim, se a Narcobrás colocasse um preço, digamos competitivo, a turma do tráfico iria fazer o quê? Prestar consultoria? Pegar busão com a carteira de trabalho no bolso para arrumar trampo de gente de bem? Os contraventores do tráfico, senhores, não escolheram o tráfico. Escolheram a contravenção. Eu sei lá o que fariam, eu não penso como traficante. Mas eu sei que algo eles fariam. O que os anima a abraçar uma vida de crime é, dentre outras muitas coisas, um Código Penal ridículo.
E os policiais corruptos, que sujam a farda de sangue e de lama? Vão continuar sujando, o que não falta neste país é oportunidade para corrupção. Eu também não sei pensar como um policial corrupto, não sei como fariam.
Diplomaticamente, então, nós estamos prontos para suportar a pressão por sermos o único país do mundo com as drogas liberadas? Tá bom, levaríamos a América do Sul de roldão (a América Latina é meio sem chance, pois o México faz fronteira com um país muito poderoso, que é totalmente contra essa conversa de liberar geral). Mas mesmo em nosso quintal... O que achará a Colômbia, que vem a duras penas expurgando o terrorismo do narcotráfico? O que achará a Argentina, principalmente ao saber da posição do Brasil? Talvez a Bolívia se empolgue...
 
E, para não perder o costume, temos o brasileiríssimo coitadismo travestido de caridade. Já estão falando em cotas de emprego para dependentes em recuperação. Em nome de uma causa pretensamente humanitária, estão nos impondo uma agenda, como uma cuia trêmula. Para os dependentes químicos graves, matar ou morrer é lei natural. Para a maioria disposta apenas a morrer, o Estado deve sim oferecer ajuda, sempre com contrapartidas. Mas a minoria disposta a matar deve ser severamente cerceada nessa disposição. Lei serve pra isso.
 
O assunto é delicado, mas não justifica o tom atual da conversa, com troca de setas e de farpas. É preciso enxergar nuances, tem muita gente morrendo.
 
E só porque propus um tom ameno, deixa dizer uma coisa: eu já faço parte de times que me dão muito trabalho. Sou católico, reacionário, palmeirense. Dos times que participo, o que mais me dá orgulho e razão de viver é o time composto por aquele que o João Miguel chama de "Papai". Esta seleta equipe já tem brigas internas pesadas demais, diárias, de maneira que não me sobra paciência para ingressar em mais nenhuma panelinha. Tudo isso para dizer, com todo respeito, que "proibicionista" é o cacête...
 
 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Um breve tratado do cinismo

"Cínico é aquele que ao sentir cheiro de flores começa a procurar pelo velório."
 
H. L. Mencken
 
 
Zapeio pelo CQC e vejo o repórter entrevistando os deputados federais pelos corredores do congresso. Primeiro fala João Paulo Cunha, que aos berros, disse não estar ainda condenado. O repórter admite que caberia ainda recurso (não cabe não)  e João Paulo continua a vociferar que ainda não tinha sido condenado. Paulo Maluf repetiu este mantra milhares de vezes. As circunstâncias o levaram a parar, da mesma forma que levarão João Paulo a parar também. Nenhum dos dois, a rigor, estava mentindo. Estariam se dissessem que eram inocentes, mas não lhes ocorreu estropiar a verdade desta forma. João Paulo está, como Maluf esteve, sendo cínico.

O dicionário Houaiss nos ensina que o verbete "cinismo" sofreu uma "derivação por extensão de sentido", ou seja, de uma Escola Filosófica, que pregava o desapego a tudo, passou também a designar uma "atitude de descaso às convenções sociais e pela moral vigente; imprudência; desfaçatez; descaramento."

Dentre os filósofos cínicos havia como expoente um sujeito chamado Diógenes, que segundo consta, morava num barril. Mas ao contrário do Chaves, esta tinha sido uma escolha do filósofo. Consta ainda que Alexandre, o Grande um dia parou com seu cavalo diante do barril e ordenou que lhe pedisse qualquer coisa, pois era um grande admirador seu. Diógenes respondeu solenemente "Peço-vos que saia da frente do meu sol." Uma resposta cínica, nos dois sentidos.

De alguma forma nós tendemos a perdoar, ou pelo menos a relevar as pessoas cínicas. João Paulo desceu aos infernos, indo de presidente da Câmara a um dos líderes do Mensalão. O cinismo é uma expressão do seu desespero e nem deve fazer parte de sua personalidade. Os cínicos de escol em geral são sutis, são mordazes, são corajosos, são acima de tudo pessoas inteligentes. Não se vê cínicos deste quilate no cenário político atual. Na verdade o cenário atual carece de quilates, mas isso é outra história.

Continuando o programa, o repórter aborda o deputado petista Vicente Cândido e o pergunta sobre se seria bom o PT comandar o Supremo. "Seria". O repórter adverte que de certa forma isso já acontece, pois o PT indicou grande parte dos ministros, de Gilmar Mendes a Luiz Fux, passando pelo famigerado Joaquim Barbosa. A resposta do deputado Vicente Cândido: "Mas eles não seguiram a cartilha." O repórter pergunta se a cartilha seria inocentar petistas, e aí eu já estava enojado demais para lembrar da resposta de Vicente Cândido.

Consigo lembrar que não chegou a ser uma resposta cínica, até porque ele tentou se expressar em jurisdiquês. Mas responder, assim candidamente (sem trocadilho) que o Executivo petista teria que intervir no STF porque os ministros indicados não "cumpriam com a cartilha" é para início de conversa falta de decoro. A noção de totalitarismo dos petistas faz por vezes que eles se dêem a este tipo de descaramento. Nada vai acontecer amanhã, e nem dentro do próprio CQC esta declaração repercutiu - preferiram bater em João Paulo. Vão continuar os Vicentes Cândidos a tentar surrupiar do STF sua autonomia, fundamental a uma República digna deste nome, a fim de que cumpram sua cartilha.

O adjetivo que merece a resposta de Vicente Cândido não remete a nenhuma Escola Filosófica grega. Remete sim, àquele objeto que ficava na coluna lateral, na parte interna dos saudosos Fuscas, entre os bancos da frente e os de trás. Tinha forma de gota e servia para que nele entrelassássemos a mão para melhor suportar os solavancos de um veículo feito para andar no deserto.
Todos devem se lembrar dos vários nomes que o objeto tinha. Nenhum era publicável. Mas todos definiriam com perfeição não apenas a resposta, mas a postura de homem público de Vicente Candido e dessa petralhada parasita que nos assola.


sábado, 6 de abril de 2013

O senso dos cavalos

"As épocas são mais inteligentes ou menos inteligentes (...) Coube-nos por fatalidade uma das épocas mais débeis mentais e espantosas da história."
Nelson Rodrigues

A frase é de um cinismo atroz, mas o que espanta é que se mantém atual. O Brasil faz questão de se manter nestes tempos débeis mentais desde a colônia. Explicações temos aos montes, mas uma das melhores é esta fala da presidente Dilma:

“Eu queria dizer para vocês, nesta noite, aqui no Ceará, em Fortaleza e nessa escola, o compromisso forte, o compromisso que é um compromisso que eu diria o maior compromisso do meu governo. Porque é que o compromisso com a educação tem que ser o maior compromisso de um governo”.

É certo que a Presidente não tem ainda prática de falar de improviso, mesmo depois de dois anos de mandato e de um treinamento de imagem a que poucos se submeteram. Pode ser que esta prática nunca venha. Deu para entender também que seu governo tem um forte compromisso com a educação. Mas a fala beira o tatibitate, como aliás várias falas de Dilma. Se ela se expressa desta forma para nos dizer algo  que todos os nossos governantes desde Tomé de Souza já disseram, imagine como vai explicar a comédia que virou o Enem ou a total falta de projeto para o ensino público em todos os níveis. Um povo que faz as redações que faz, elege uma presidente que não passaria em concurso de oradora de formatura de ginásio.

E um povo mal-educado, inculto e embrutecido se deixa levar muito, mas muito facilmente pelo senso comum e o elege como religião, na pior acepção do termo "religião". Numa democracia, e ainda somos uma, é lícito que as pessoas tenham opiniões e que o respeitoso debate dos contrários sirva para nos engatar num processo civilizatório. Mas numa sociedade, onde por falta de educação o senso comum é lei, a democracia fica ameaçada, pois qualquer opinião fora do dito senso soa como delito. Por isso cabe aqui a expressão em inglês para senso comum - "horse sense".

Dois deputados julgados e condenados pela Suprema Corte deste país estão na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Já é um acinte eles estarem na Câmara, ainda mais nesta Comissão. Esta Câmara é presidida por um deputado que representa o que de mais arcaico há em nossa política, e tem no Senado ao lado um presidente que é do mesmo naipe. Bem se diga que a posse de Renan Calheiros mereceu um abaixo-assinado, mas foi algo até pueril se comparado com a reação à presença de Marcos Feliciano na Comissão de Direitos Humanos.

O tal pastor disse, sim, um monte de bobagens sobre a união de homossexuais. Que se discorde dele e que se estranhe sua presença, logo na Comissão de Direitos Humanos. O que assusta é a virulência da discordância, que em nenhum momento foi sequer sugerida nos casos de Calheiros, Genoíno, João Paulo Cunha e Henrique Alves. Também é certo que todos têm pleno direito de escolher contra o que protestar. Mas ninguém protestou até hoje contra o artigo 226 da Constituição, que diz textualmente:

"Art. 226, § 3º. Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento."

Pronto, é só pressionar o Congresso para mudar este artigo. Vale sair por aí fazendo o escambau,  se beijando na boca, cantora dizendo que tem esposa. Vale até dizer que a constituição é homofóbica. Eram outros tempos e outras demandas em 1988, já estaria mesmo na hora de mudar isso. Mas não se vê nem os deputados comprometidos com a causa discutindo este artigo.

Discutir artigo constitucional é meio chato, e pode ser que apareça jurista, teólogo, enfim, gente muito preparada para avisar que o artigo não necessariamente fere o senso comum. Mais fácil sentar o porrete no pastorzinho. Ele feriu o senso dos cavalos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Não pode, não quer, não vence

Antes que se pergunte o que se passa na cabeça de um alagoano para eleger Renan Calheiros ao senado é preciso que se pergunte o que se passa na cabeça de um paulista para eleger Tiririca. São pensamentos diferentes - se é que podem ser chamados assim - os que povoam o povo para que votem em figuras deste naipe.
Tiririca foi um voto de escárnio de uma gente mal educada, sem formação política decente, pois que para escarnecer do que quer que seja é preciso certo refinamento intelectual que nossas escolas ainda não conferem aos cidadãos. Para dizer que o Congresso é uma vergonha, tornam-no uma vergonha maior ainda com a presença de um palhaço semi-analfabeto, com todo o respeito à pessoa do Tiririca.
Calheiros foi o voto da dentadura, do compadrio, do favor para o parente, da boquinha, do "farinha pouca, meu angu primeiro".
Já se disse aqui que o Congresso é o espelho de quem o elege, e não adianta culpar o espelho se a cara é torta. Para quem está elegendo os congressistas vale primeiro seu gueto, seu interesse ou seu tosco protesto. Ter um poder republicano sólido e independente é secundário.
Quem entrega o Congresso de bandeja para a sanha do executivo somos nós os eleitores. E ficam os deputados e senadores fazendo o que qualquer um de nós faria se lá estivesse.
E o pronome é "nós" mesmo. Nessas horas fica confortável falar dos brasileiros como se fossem estrangeiros. Esta eleição de Calheiros para a presidência do senado é uma vergonha, mas sua eleição para senador também foi.
Vale corrente de abaixo-assinado, vale cobrar postura do senador em quem votou - lembrando que por muito pouco São Paulo não elegeu Netinho de Paula, vale cobrar apoio a Pedro Taques, candidato da oposição mesmo que ele vá perder feio.
E principalmente, vale não se esquecer deste episódio na próxima eleição para o Senado.
Do contrário, a chamada "Câmara Alta" vai continuar como nos tempos de Gregório de Matos (o Boca do Inferno), poeta baiano morto em 1696, que assim descrevia a Câmara Municipal de Salvador, mas que tem uma triste atualidade com nosso Senado:

"A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.
"

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A minhoca, o anzol e o tempo novo

Quando Marcelo Crivela recebeu o ministério da Pesca como um docinho para frear as pretensões de Celso Russomano em SP, que na época ainda liderava as pesquisas, assumiu com humildade dizendo que ainda iria aprender a colocar a "minhoca no anzol". Ainda era um tempo em que as secretarias usadas como consolo ou como troca de favores serviam apenas para isso. Marta Suplicy ganhou o Ministério da Cultura para apoiar Haddad.
Mas a nomeação do ex-prefeito de Diadema, José de Filippi Jr, para secretário da Saúde causaria estranheza se ninguém conhecesse o PT. A rigor o critério principal seria afastar Carlos Neder - médico pela USP com mestrado em saúde pública pela Unicamp. Neder, na elaboração do Plano de Governo do PT, disse em suma que iria rever a função das Organizações Sociais em São Paulo, que atuam em parceria junto à prefeitura em diversas áreas da saúde.
Não se sabe por que ainda insistem em ler Programa de Governo do PT, mas teve gente que leu. E obviamente caiu de pau na possibilidade de se afastar as OS de suas funções, voltando a saúde para a gestão mastodôntica da prefeitura, com todos os vícios do funcionalismo público. A fim de dirimir mais essa mentira impressa em seu, por assim dizer, plano de governo, Haddad escanteia Neder e nomeia Filippi para secretário. Na verdade, Neder estava fora de cogitação desde a campanha, recaindo sobre Marianne Pinotti, derrotada como vice de Chalita, uma possibilidade. Milton Arruda, eminente médico da USP, que estava no ministério com Alexandre Padilha, era outro nome.

Pois muito bem. Filippi é engenheiro civil. Foi prefeito de Diadema. No seu mandato construiu um troço que se chama "Quarteirão da Saúde", um prédio imenso que concentra várias atividades no setor. Na época de seu mandato eu trabalhava em uma OS de São Paulo, com várias Unidades em bairros fronteiriços com Diadema. Era comum os diademenses forjarem endereços de São Paulo para poderem ser atendidos, uma vez que em sua cidade não tinham como.
De todo modo, parece que na gestão seguinte, do prefeito Mário Reali, a saúde em Diadema melhorou, tanto que ele não foi reeleito - a despeito do desesperado apoio de Lula.
Filippi foi também coordenador financeiro da campanha de Dilma Roussef. Ficou famosa uma carta que ele enviou a várias empresas, que começava exatamente assim:

“Em 2006. procurei sua empresa como coordenador financeiro da campanha de reeleição do presidente Lula. Naquele momento, sua empresa não aceitou o convite para contribuir com nossa campanha. De todo modo, acredito que ela tenha se beneficiado com os avanços conquistados pelo Brasil…”.

Era com essa faca no pescoço que ele angrariava fundos para a campanha...

Enfim, o triste de tudo isso é que os méritos do Secretário de Saúde nomeado é não ser quem disse bobagem no Plano de Governo. Gente boa para estes cargos o PT sempre teve.
O triste de tudo isso é que Filippi, ao contrário de Haddad, não tem vocação para poste. Uma das maiores OS da capital, a SPDM, atua em Diadema. Pode ter recebido a carta acima e se enquadrado. Porque é esse tipo de enquadramento que o PT exige, só esse.
As brechas nos contratos com as OS existem e devem ser verificadas com rigor. Isso não quer dizer que devam ser extintas. Nomear este secretário, apenas revela a disposição de Haddad para acomodar a situação e deixar tudo como está.

Projetos para a saúde? Deixa pra lá...
Porque este prefeito é, segundo o slogan da campanha, "o homem novo, para o tempo novo."

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O "Petista de Churrasco"

"Sou reacionário. Reajo a tudo que não presta."
 
Nelson Rodrigues
 
 
Há um tipo que vem criando raízes entre nós: o "Petista de Churrasco".

 
E diante do mar de lama, cuja profundidade ainda parece estar em nossos joelhos, eles estão se multiplicando. Depois da debandada de gente como Hélio Bicudo, Chico de Oliveira, Plínio de Arruda Sampaio; depois que foram debandados Celso Daniel e Toninho, depois da discussão da guinada à direita ser tirada da categoria de heresia e da eclosão de Blogs e articulistas de oposição, mas principalmente depois da ação do STF condenando os mensaleiros, a categoria dos Petistas de Churrasco se faz necessária, mais do que nunca, para manter parte importante da força do Partido.
Com o turbilhão de informações, diárias, sobre a roubalheira, fica realmente difícil para a milícia paga da internet.
 
E o PT não se ajuda: os fatos novos vêm com pimenta, como o caso Rose, o que não deixa a questão se banalizar e dá mais munição aos "conspiradores", "reacionários", "fascistóides" e quetais. Resta então muito pouco aos petistas que insistem em sê-lo seja por vergonha de admitir o engodo, seja porque acham que não ser petista quer dizer necessariamente ser tucano ou ainda porque devotam a Lula adoração eterna e, convenhamos, se desfazer de um Deus é bastante complicado.
 
Resta levar o debate ao chão, como no jiu-jitsu. Esquivar-se dos argumentos do amigo, colega - o que em muitos momentos é se esquivar da realidade - e no último caso levantar a voz e ofender. O Petista de Churrasco não tem medo de estragar o evento, nem mesmo teme dar uns berros ou ironizar cheio de raiva o dono da casa, sugerindo sua desinformação ou adesão a algum sistema ditadorial de direita.
Na falta de argumentos, está sobrando apenas sentimentos.
A gente entende.
Muitos de nós já apostaram em Lula e no que julgávamos um projeto. Fosse só pela competência de continuar os programas tucanos trocando os nomes, e mais nada fazer de novo que prestasse a não ser inaugurar pedras fundamentais, ainda assim poderíamos estar no nível da competência administrativa.
O que o Petista de Churrasco não vai aceitar que se diga, e isso será uma facada pela frente, é que o PT é se converteu num partido de ladrões.
 
Por que não deixam Marcos Valério falar? Por que não ouvem Carlos Cachoeira? Quem não deve teme? Experimente perguntar estas três questões a um Petista de Churrasco e terá a festa estragada.
Os Petistas de Churrasco não têm medo de perder amigos, de fazer pesar o ambiente, de ofender. E não discutem desta forma necessariamente por serem boçais, mas por desespero. Querem ganhar no grito, ridicularizando o colega, que muitas vezes está com o filho pequeno no colo.
E o que fazemos? Nos calamos. Não por sermos necessariamente de direita, mas apenas por senso de ridículo.
E fica a impressão de maioria silenciosa, de oposição cidadã claudicante.
 
Não senhores. Aqui estamos, mas o nosso jeito é diferente. Se houve mensalão tucano, que sofra na letra fria da lei quem o fez. Se houve privataria, que se prenda quem a promoveu. Não temos ladrões de estimação.
Por termos percebido que um Estado que tudo dá, tudo pode tirar; por nos recusarmos a passar com uma utopia por cima de liberdades individuais; por reconhecermos Stálin, Hitler, Fidel, Mao, Mussolini, Pol Pot, como pragas da mesma natureza, só discrimináveis em sua virulência; e principalmente por ainda (ainda) vivermos numa democracia que nos dá o pleníssimo direito de achar o que bem entendermos, queiram nos desculpar: "nóis vamo" ali ver se a picanha já saiu.
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O Dr. Rui do Lula


Comparar Lula a Ademar de Barros era um despropósito.
Ademar veio da elite, formou-se médico, deixou um legado de diversas obras, em mandatos de prefeito e governador, principalmente. Vários feitos, como a hidrelétrica de Ilha Solteira, a Rodovia Anchieta, a Polícia Rodoviária, o Hospital das Clínicas (que leva seu nome), o estádio do Pacaembu e mais uma leva.
Muitos deles inclusive já não existem, como a Rodoviária da Praça Roosevelt.

Mas um feito, melhor dizendo, um lema, um slogan, que ele mesmo levou a sério, ainda ressoa: o "rouba mas faz", com o qual chegou a estampar uma de suas inúmeras campanhas.
Lula mais disse que fez do que propriamente fez. Seu legado é sua jornada pessoal, deveras impressionante. Os Ademaristas declinavam as inaugurações com o peito cheio. Os Lulistas saúdam sua origem, sua esperteza, sua picardia.
Em comum com os Ademaristas, os Lulistas estão cada vez mais fadados a conviver história afora com o espectro da corrupção.

Há outros fatores em comum: na campanha eleitoral de 1955, Ademar era candidato, contra dentre outros Juscelino Kubitsheck. Num panfleto intitulado "quem fez mais pelo país?" afirmava ter feito 18 mil leitos hospitalares, enquanto Juscelino apenas 60. Perdeu a eleição, como todos sabemos, mas já se utilizava de algo como o “nunca antes neste país”, abusado por Lula.

Como ocorre com Lula, havia um séquito de artistas a defender Ademar. Até humoristas, como Alvarenga e Ranchinho, num raro caso de humor "a favor", com seu refrão: "Ademá, Ademá, é mió não faz má!".
O caso mais famoso foi a marchinha "Caixinha do Ademar", de Herivelto Martins e Benedito Lacerda, interpretada por Nelson Gonçalves - gente de peso à época e exaltados até hoje. Dizia a marchinha:

"Deixa falar toda essa gente maldizente/ Deixa quem quiser falar/ Essa gente não tem o que fazer (...)/ Enquanto eles engordam tubarões/ A caixinha defende o bem estar de milhões."

Estes artistas tinham contrato com o partido de Ademar, tudo muito velado. Assim como hoje vários jornalistas da internet, ou mesmo da imprensa escrita possuem ligações com o petismo, a maioria via dinheiro de estatal.

As ligações e simpatias da imprensa eram fortes, como hoje é com Lula. Ademar foi o fundador da rádio Bandeirantes, depois vendida a seu genro, João Saad. Cultivava amizade com Assis Chateaubriand e dispunha de espaços generosos nas publicações dos Associados, inclusive no Cruzeiro. Pouco se consegue, daquela época, algum texto que o acuse, salvo a cruzada de Paulo Duarte, jornalista que se pautava por denunciar as práticas ademaristas. Ainda assim, Ademar afirmou certa vez: "Insisto em dizer que a pior corrupção é essa que anda aí em certa parte da imprensa." Já vimos esta frase na voz de Lula, que acusa de golpista a imprensa que lhe é crítica.

A linha de defesa de Lula ante à torrente de acusações costuma começar com um silêncio sepulcral. Ele se defende depois de assentada a poeira, já instruído inclusive por marqueteiros. Gente que parece ter lido os autos de defesa dos processos que Ademar sofreu.
Afinal, Ademar de Barros inaugurou, ou pelo menos consolidou a linha de defesa do "todo mundo faz", aliada à perseguição política. Num discurso em que se defendia, chegou a dizer que Caxias fora acusado de roubar cavalos do exército e Campos Sales de roubar um colar.

Muito representativa é a peça em que seu advogado de defesa - Oscar Pedroso Horta - pede um habeas corpus, onde reconhece a oratória "desabusada e impolida" de seu cliente (e não é de Lula que estava falando!), mas referenda que apesar da origem quatrocentona, Ademar representaria "a ebulição do presente desordenado, dinâmico e criador, em contraste com o espírito contemplativo e desdenhoso dos quais ainda divagam sob a sombra dos cafezais, cada ano menos produtivos".
As acusações de corrupção não passariam de intriga das elites, das quais paradoxalmente ele fazia parte. Alguma semelhança com Lula?

Outra semelhança se vê nos partidos: O partido de Ademar, o PSP tinha sua máquina clientelista, muito bem azeitada, inclusive cooptando formadores de opinião. Poderíamos falar sem exageros em "Pessepismo", como hoje falamos em "Petismo". Havia também um "Ademarismo", conceito mais amplo, que representava um estilo mais pessoal, voltado às massas trabalhadoras - nos mesmos moldes do "Lulismo" de hoje.

"O fato é que o carisma de Ademar constituía do principal fator de identificação de seu partido, ao passo que o PSP funcionava como um sustentáculo organizacional sem o qual o apelo Ademarista correria o risco de se diluir." (1)

É forçoso o paralelo entre este arranjo e o atual entre Lula e o PT.

E eis que topamos no noticiário com outro episódio de corrupção na era Lula que remete diretamente a Ademar de Barros.

Antes, voltemos no tempo, a 1969, com Ademar já falecido. Na época, a organização VAR-Palmares, que lutava contra a ditadura militar, furtou um cofre de sua casa. Nele diziam ter encontrado o equivalente hoje a 15 milhões de dólares. Consta que o cérebro por trás desta ação foi uma militante do grupo, de nome Dilma Roussef.
O tal cofre era guardado por Ana Benchimol, amante de Ademar, conhecida pelo codinome de Dr Rui. Apurou-se que havia mais cofres, e que Ana sabia de todos eles. A guerrilha da VAR-Palmares se arvorou ao direito do roubo por considerar que aquela "caixinha", outrora defendida em música, tinha dinheiro do povo. Dilma parece se revoltar menos com as caixinhas de hoje.

Lula defendeu que o Mensalão não passou de uma "caixinha". Com a prisão de Rosemary de Noronha, escancarou-se que em São Paulo Lula operava a sua caixinha pessoal. Tem chumbo grosso vindo aí, com escutas telefônicas, envolvimentos de governadores. Nada de muita monta, é bem menos do que movimentou a Delta.

Rosemary de Noronha, enfim descoberta na Operação Porto Seguro da Polícia Federal, tinha em sua caixinha um nada se comparado à Ana Benchimol.
É apenas a mostra que este governo do PT nada mais é que a repetição, com toques de mediocridade, do que de pior já tivemos em nossa política. Não tem envergadura nem para ser chamado de neoademarismo.

 

(1) Cotta, Luíza Cristina Villaméa, in "Adhemar de Barros (1901-1969): a origem do rouba mas faz", dissertação de mestrado apresentada na FFCLCH/USP, 2008