quinta-feira, 2 de julho de 2015

"Where problems melt like lemon drops"

"Um comunista é aquele que leu Marx. Um conservador é aquele que entendeu."Ronald Reagan



A reação à decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos em relação à união estável de gays tem a ver com a reação às votações da Câmara dos Deputados para a redução da maioridade penal. Ambas mostram nosso carnavalismo, nosso pendão a discutir política com o fígado e não com o cérebro, o que nos leva a odiar o fato de discordarem de nós. Tal postura estabelece ainda o padrão de açodamento que permeia os debates, onde já começamos com uma opinião formada e com ela vamos até o fim, sem entender completamente nem matizar a questão.

Examinemos a decisão da Suprema Corte. Leiam este trecho da argumentação do juiz Anthony Kennedy, que votou favoravelmente à união estável dos gays:

"Nenhuma união é mais profunda do que o casamento, porque ele incorpora os mais altos ideais do amor, da devoção, do sacrifício e da família. Ao formalizar uma união conjugal, duas pessoas se tornam algo maior do que eram antes. Como alguns dos demandantes demonstraram nesse caso, o casamento incorpora um amor que pode perdurar mesmo após a morte. Seria um mau entendimento, para esses homens e mulheres, dizer que eles desrespeitam a ideia do casamento. Seu pleito é o de que eles respeitam o casamento e o respeitam tão profundamente que procuram encontrar satisfação para si mesmos. A esperança é a de que não sejam condenados a viver em solidão, excluídos de uma das mais antigas instituições da civilização. Eles pedem por dignidade igual aos olhos da lei. A Constituição garante a eles esse direito."

Uma bela e definitiva argumentação, que sancionou o voto de Minerva do juiz Kennedy e resolveu a questão por 5 votos a 4 (foi apertado o negócio por lá). Percebam que a firmeza do argumento não impede a sua leveza. Ele precisou falar em onda conservadora? Mandou algum pastor procurar rôla? Falou em avanço ou retrocesso?
Ele simplesmente fez o que é pago para fazer e cortejou a questão à luz da Constituição norte-americana. Alegou que os estados (13 dos 50) que proibiam a união estável dos gays infringiam a décima-quarta emenda da Constituição, onde se lê que todos são iguais perante a lei. Esta emenda, aliás, foi aprovada para dar sustentação jurídica à abolição da escravatura no EUA - que aliás foi promulgada via outra emenda constitucional, a décima-terceira. As duas emendas datam de 1868. Não resisto e colo aqui o trecho decisivo da 14a emenda:

"Todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos e sujeitas a sua jurisdição são cidadãos dos Estados Unidos e do Estado onde tiver residência. Nenhum Estado poderá fazer ou executar leis restringindo os privilégios ou as imunidades dos cidadãos dos Estados Unidos, nem poderá privar qualquer pessoa de sua vida, liberdade ou bens sem o devido processo legal, ou negar a qualquer pessoa sob sua jurisdição igual proteção das leis”.

O juiz Kennedy, na prática, se limitou a asseverar que os estados que ainda proibiam a união estável não poderiam mais proibi-la, pois isso feria a Constituição do país. Algo a se comemorar sim, inclusive com carinha de arco-íris. Mas, se me permitem, em meio à algazarra colorida, perdemos a chance de olhar pro nosso quintal.

O Brasil aprova a união estável de gays desde 2013. Beleza. Foi decisão do Supremo Tribunal Federal, nossa Suprema Corte. Mas foi uma decisão, digamos, brasileiríssima. Ora, vimos lá em cima que o douto juiz Kennedy alegou a emenda que diz que todos são iguais perante à lei. Na nossa Constituição temos o artigo 5o, que diz a mesma coisa. O problema é que na mesma Constituição há o artigo 226. Ei-lo:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
§ 1º O casamento é civil e gratuita a celebração.
§ 2º O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.
§ 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.

Viram o parágrafo 3o? Pois é. A nossa Constituição só reconhece a união estável entre o homem e a mulher. Tá lá escrito. Danou-se. Para que se libere o casamento gay no Brasil, este artigo tem que ser mudado. E só quem pode mudar um artigo da Constituição é o Congresso. O STF quando aprovou a questão resolveu ignorar tudo isso e tomou para si o poder de legislar, redundando num pastiche jurídico saído da casa que tem como dever resguardar exatamente a Constituição. Por mais justa que seja a causa, a sustentação legal da liberação do casamento gay da forma que foi feita é zero. De maneira que discutir união estável dos gays no Brasil sem discutir o artigo 226 é patinar no vazio. Poderia haver uma pressão popular para tanto, mas os movimentos envolvidos acham que é mais eficaz pendurar traveco numa cruz besuntado de molho de tomate.

Falando nisso, estão acontecendo as votações em plenário a fim de mudar outro artigo da Constituição, desta vez o 228. Vamos a ele:

Art. 228. São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial.

Ocorre que por vários argumentos, inclusive por pressão popular, apareceu a questão de se reduzir para dezesseis a idade onde o cidadão começa a estar sujeito às sanções do Código Penal. Como se trata de alterar artigo constitucional, o processo é chatinho - e tem mesmo que ser. Para começar, a aprovação da mudança não é por maioria simples, e sim por 60% dos votos. No caso da Câmara dos Deputados seriam 308 votos. Outra coisa é que antes da votação em plenário, existe a necessidade de se submeter o texto da proposta a uma comissão especial. Essa comissão pode mudar o texto original como achar que deve e então, após as mudanças, aprova um substitutivo. Para votação em plenário, vai inicialmente este substitutivo. Caso ele seja reprovado - como aliás foi terça na primeira votação - a questão não se encerra, pois o texto original volta para ser discutido no plenário. O plenário então muda o texto original como acha que deve e tem-se então um novo substitutivo. Foi este substitutivo, o aprovado na segunda votação. Logo, a diminuição da maioridade penal que "perdeu" na primeira votação não era a mesma que "ganhou" na segunda. Resumidamente, pelo texto provisoriamente aprovado, os maiores de 16 que cometerem crimes hediondos, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte vão ser punidos, mas não como gente grande. Ficaram de fora deste substitutivo o tráfico de drogas - onde realmente se vê a cooptação dos menores em situação de vulnerabilidade - e o roubo com agravante. 

Deu para entender? Pois é. Jean Wyllis não entendeu e já quer ir ao Supremo. Mal sabe ele que o regimento manda ter outra votação num intervalo de 05 sessões. Caso seja aprovado de novo, vai ao Senado e começa tudo outra vez. Se for aprovado em todos os pleitos no plenário do Senado (sei não, viu...) só aí o artigo constitucional será alterado. Até lá serão mais umas três ou quatro votações, e como a gente não quer discutir mas sim fazer carnaval, lá pela quarta votação estaremos nos mandando um "chuuupaaa" por outra razão qualquer, e irão fazer com a questão o que bem entenderem.

As instituições deste país só serão mais fortes se forem respeitados os ritos regimentais que as regulam. Um conservador que nem eu acha que a democracia e as instituições estão acima do que eu penso. Se eu tiver que "perder" a questão, que seja dentro dos trâmites previstos e regiamente cumpridos. Assim eu nunca vou me sentir completamente derrotado, uma vez que ganhou a democracia e por conseguinte o país. Mas só vale se for nos conformes. Berrar nas galerias um "vai morrer", pintar os seios de guache, me chamar de fascista (o "coxinha" eu confesso achar fofo) são atitudes totalitárias.

Nossos problemas são complexos, somos um país em construção, e não um lugar além do arco-íris onde os problemas se dissolvem como balas de limão. Mas nem por isso eles precisam ser resolvidos na marra. Revoluções só funcionam para seus poucos líderes.

Tem muito bom-moço que acha que sua causa é mais nobre que as outras e em nome disso pode atropelar a letra da lei, o decoro, o respeito mútuo e o contraditório. Um artista plástico, vegetariano chamado Adolf Hitler achava isso. Um jovem médico idealista chamado Che Guevara também. Ambos leram Marx...

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Carta aberta a Augusto Nardes

Ilmo. Senhor Augusto Nardes,
DD Ministro do Tribunal de Contas da União

Esta carta começa com um agradecimento. Obrigado por me fazer corrigir uma lacuna em minha vida besta de cidadão alienado. Descobri o TCU por sua causa, Ministro! Entendi que, por exemplo, apesar de se chamar "Tribunal", o TCU não pertence ao poder judiciário. Trata-se de uma casa consultora do Legislativo - ainda que não pertença ao Congresso. De maneira que os senhores aí não são juízes. Então não julgam, certo? Aprovam ou desaprovam as contas do Executivo e daí mandam para o Congresso para que este faça o que manda a lei, cumprindo, aí sim, os ritos legais. A coisa fica mais fácil de entender quando a gente se dá conta que o TCU é presidido por um veterinário.
Mas Senhor Ministro, me explique: por que a preocupação com o direito de defesa? A este direito faz jus um réu. E, como já concordamos, o senhor não é um juiz. Por que, então, a preocupação com um rito processual, com as formalidades de um inquérito, se isso que é feito no TCU é apenas e tão somente uma análise de contas? A resposta estaria no fato de que a reprovação das contas se daria por motivos indefensáveis? Será porque a condenação, dada não pelos senhores mas pelo Congresso, deveria, em cabendo, ser o impeachment da presidente? Em que lugar, por gentileza Ministro Nardes, está escrito que cabe neste momento o direito de defesa?
Permita-me lembrá-lo que a Constituição dá ao TCU a incumbência de analisar as contas do Executivo num prazo de 60 dias. O relatório demorou 70 dias para sair. Só isso já merecia uma ação direta de inconstitucionalidade, o senhor não concorda? (estou sendo cínico, mas desde o julgamento do mensalão nos acostumamos a argumentos para lá de cínicos). Sem contar que, para relevar essas pedaladas fiscais, Rodrigo Janot, o Procurador Geral da República, já deu uma pedalada jurídica. Ele disse que a condenação à Dilma não cabe, pois essas condenações só podem ser dirigidas a governantes no exercício do cargo. Ele confundiu "cargo" com "mandato", Ministro? Ou foi cínico também?
Mas o fato é que apesar de Janot e dos 70 dias, apesar de terem sido realizadas 17, repito 17 oitivas de membros do governo antes do relatório reprovador ser elaborado pelo Ministro Julio Marcelo, o senhor resolveu se esquecer da Constituição e dar mais 30 dias para uma defesa que deveria ser feita no Congresso. Mas pra que arriscar, não é mesmo? Na sua explanação, o senhor se exaltou, falou grosso - que bonito! - mas não entrou no mérito de nenhuma das 13 (esse número te diz alguma coisa?) irregularidades nas contas apontadas pelo relator.
Em democracias, Ministro, o povo não fica com medo quando político fala grosso. É o contrário, meu caro. De todo modo, mais uma vez obrigado pela chance de te conhecer. Fico te devendo. Posso perguntar uma última coisa? E o PT? Ficou te devendo quanto?

quarta-feira, 11 de março de 2015

Nada nos deterá

“Cada um com suas armas. As nossas são estas: esclarecer o pensamento e por ordem nas coisas.”
Antonio Candido


Nada nos deterá...

Nem o desesperado discurso que nos toma como ricos com ódio de um partido que deu atenção aos pobres. Ricos não odeiam o PT. O Silvio Santos não odeia o PT. O dono da Friboi não odeia o PT. Os banqueiros não odeiam o PT. O dono da fabriqueta de borrachas para porta de geladeiras não odeia o PT. O dono do mercadinho de verduras, a manicure dona do salão, patrões enfim de todos os tamanhos não tem, melhor dizendo, até agora não tinham, porque odiar o PT.
A turma que paga um monte de imposto não odeia o PT porque o PT faz com que este imposto possibilite mais renda para os pobres. A turma que paga muito imposto sabe que só 2% do trilhão de reais arrecadado de imposto vai para projetos sociais. Ninguém odeia o PT por isso, mas sim porque sabe que o muito imposto que paga vai também para sustentar mais de 11 mil funcionários públicos não-concursados - estes sim, aspones ricos que adoram o PT.
Não queremos que Dilma saia porque os aeroportos estão cheios de gente que nunca viajou de avião. Queremos que Dilma saia porque os aeroportos estão um caos por sua leniência administrativa.

Nada nos deterá...

Nem o argumento que o impeachment fere a constituição, é golpe, ou mimetiza um terceiro turno. A lei 1079/50 versa sobre o impeachment, e nela é clara a possibilidade de qualquer cidadão protocolar na Câmara dos Deputados um pedido de impedimento ao Presidente da República. O pedido para o impeachment de Collor foi feito por Barbosa Lima Sobrinho, que era presidente da Associação Brasileira de Imprensa - ABI. Aliás foi na sede da ABI que Lula conclamou seu exército de fascistas do MST para nos intimidar.
Não queremos que Dilma saia para que os movimentos sociais organizados sejam debelados. Queremos que Dilma saia para mostrar que ABI, UNE, CUT e afins são apenas braços armados a serviço de um projeto de estado totalitário.
Queremos que Dilma saia para mostrar que o maior e mais legítimo dos movimentos sociais somos nós que fazemos.

Nada nos deterá...

Nem o fato de não ter se provado nenhuma denúncia de corrupção contra a Presidente Dilma. Queremos que ela saia por ter cometido crime de responsabilidade. Ela mesma o confessou ao dizer que assinou sem ler o contrato de compra da refinaria de Pasadena, gerando um prejuízo na ordem do bilhão. O artigo 86 da Constituição é claro em definir a possibilidade de afastamento do Presidente em se provando este tipo de crime – e já temos pareceres jurídicos para tanto.
Queremos que Dilma saia por ter condenado o país à recessão ao abandonar, em nome de uma ideologia que a história jogou no lixo, o tripé câmbio flutuante + metas de inflação + responsabilidade fiscal – sendo esta última enterrada em vergonhosa votação no congresso, onde se divulgou inclusive o preço de cada parlamentar.
Não queremos que Dilma saia por ter roubado dinheiro. Queremos que Dilma saia por nos ter roubado a esperança.

Nada nos deterá...

Nem a possibilidade de ter Michel Temer como presidente. Não temos um Itamar Franco, mas temos ainda Armínio Fraga, André Lara Rezende, José Serra, Gustavo Franco, Pérsio Arida. Temos até Joaquim Levy, que poderia voltar a ser o secretário de Políticas Econômicas do Ministério da Fazenda, cargo que ocupou no mandato de FHC e mais condizente com seu perfil.
Temer, por instinto de sobrevivência, saberá da necessidade de se montar um governo de “concertação”. Itamar tentou isso, inclusive convidando Luíza Erundina para o ministério. Ela aceitou e por isso foi expulsa pelo PT, um partido que sempre pensa no Brasil antes de tudo.
Não queremos que Dilma saia apenas para trocarmos de presidente.
Queremos que Dilma saia para trocarmos de ministério, para trocarmos a gestão das Estatais e das Agências Reguladoras.

Nada nos deterá...

Nem a grande mídia, na sua parte vendida, que considerou os Black Blocs inicialmente como uma minoria de vândalos que não faziam parte das manifestações, e depois justificou sua forma de protesto como uma alternativa estética. Esta mesma mídia vai fotografar a meia dúzia de imbecis que querem a volta da ditadura e vai dizer que foram a tônica do protesto. A gente não vai aparecer no Fantástico domingo – tanto faz, a gente já não assiste ao Fantástico.
Não queremos que Dilma saia por conta da imprensa aparelhada.
Queremos que Dilma saia para garantir que esta imprensa vendida, suja, golpista e irresponsável continue uma imprensa Livre.

Nada nos deterá

Nem a trabalheira que será acompanhar o julgamento do Petrolão, depois o da lambança na Eletrobrás, depois o da máfia do BNDES e por aí vai. Churchill disse que o preço da liberdade é a eterna vigilância.
Vigiaremos.
E que saibam disso todos aqueles que vilipendiarem o patrimônio deste país que queremos de uma vez por todas fazer grande. Que temam sempre o ronco das ruas, que entendam que os “descamisados”, os “pés-descalços”, os “desassistidos” têm cada vez mais a consciência dos “coxinhas”. Que parem de tentar dividir o povo em castas. Somos todos brasileiros.
Não queremos que Dilma saia para depois fazer um carnaval. Queremos que Dilma saia para que depois façamos uma Nação.

Até domingo!!



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Três Porquinhos e o Leopardo

Ao ver os três indicados para a Equipe Econômica, parece estranho, mas veio um deja vú: por esta época, nas semanas que antecederam sua ascensão ao cargo quatro anos atrás, Dilma sacou da fábula dos Três Porquinhos para se referir aos seus tenentes da transição: Antônio Palocci, José Eduardo Dutra e José Eduardo Cardozo. Seis meses depois só Cardozo ainda se mantinha em combate - ainda que fazendo suas porquices no Ministério da Justiça. Dutra virou um aspone muito bem remunerado na Petrobrás em reconhecimento às porcarias prestadas na primeira campanha de Dilma como presidente do PT. E Palocci... bem, Palocci foi tratar de multiplicar seu patrimônio.
Os tempos atuais são mais bicudos. A candidata que alertou que os tucanos quebraram três vezes o país e que Aécio traria arrocho, juros altos e desemprego ficou na foto das urnas eletrônicas no fim de outubro. 
Mas, por outro lado, a candidata que vociferava que daria plena liberdade às investigações na Petrobrás - como se tivesse este poder... também ficou na foto. Em muitos aspectos este governo é uma continuação. Apesar de Kátia Abreu na Agricultura, Gilberto Carvalho irá cuidar das questões indígenas, além de continuar cuidando de ser os olhos de Lula no Planalto. O PMDB continuará com alguns cargos-chave nas estatais. Não há nem sinal de se diminuir o número de cadeiras ocupadas neste ministério sucupirense.
Depois de doze anos de lulopetismo, essa manobra na indicação, principalmente de Joaquim Levy, cheira mais a instinto de sobrevivência que a plano de governo. Dilma jamais os chamará de "porquinhos" ainda que tenha vontade disso no caso de Alexandre Tombini, que continua no Banco Central. O bicho da vez nem é o Lobo, mas quase: trata-se do Leopardo.
Filme basilar na cinematografia, "O Leopardo", de Luchino Visconti, conta a história do príncipe das Duas Sicílias que tenta resistir ao processo de unificação da Itália. Não, eu não direi da famosa epígrafe do filme, a que diz que "as coisas precisam mudar para que continuem na mesma". Mas sim de um diálogo entre o Príncipe e um enviado do novo regime. Ele diz ao Príncipe: "Este estado de coisas não vai durar; a nossa administração, nova, ágil, moderna, mudará tudo”. Ao que o Príncipe responde:“Tudo isso, pensava, não deveria poder durar; mas vai durar, sempre; o sempre humano, é claro, um século, dois séculos…; e depois será diferente, porém pior. Nós fomos os leopardos e os leões; os que vão nos substituir serão pequenos chacais, hienas; e todos, leopardos, chacais e hienas continuaremos a crer que somos o sal da terra”.
Dilma nem o PT seriam tão densos, mas são igualmente movidos por puro orgulho, sede de poder e desprezo por tudo e todos que não comungam de seu credo. Longe deles enxergar qualquer espírito de tempo para além de suas ambições.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Eu preciso de um Estado

 Podemos começar com um dos tópicos do "Manifesto Comunista", do Marx:

“A luta do proletariado contra a burguesia embora não seja na essência uma luta nacional, reveste-se contudo dessa forma nos primeiros tempos. E natural que o proletariado de cada pais deva, antes de tudo, liquidar sua própria burguesia.

Beleza. Temos um modelo que para dar certo necessita da destruição de uma classe social. Pelo termo "burguês" entende-se que se trata de um vendedor de mercadorias - os "burgos" eram grandes feiras para onde afluíam grande quantidade de gente. Aqueles que lá já estavam montando suas barracas eram os burgueses, a rigor uns feirantes. Tá bom que Marx tivesse dado uma acochambrada no termo, esticando-o para definir os donos dos meios de produção.
De maneira que "burguês" definiria tanto o seu Hiroshi, dono da barraca de pastel que emprega uma meia dúzia de gente, como o Bill Gates. A rigor, qualquer um que ousasse possuir alguma coisa seria um burguês. Se o sujeito tem uma casa, ele é um burguês. Se ele tem um carro, por suposto, é um burguês. Mas se ele quiser ter uma moto para fazer trilha no fim-de-semana, ele é mais burguês ainda, e pode ser que segundo o julgamento "vermelho" mereça mais ainda a morte.

Eu sou médico. Eu não fabrico produtos, nem sou comerciante. Então não devo ser burguês, né?
Por outro lado, o conceito de "mais-valia" valesse, não se aplicaria a mim, pois minha força de trabalho é empregada na promoção da saúde, e vivem dizendo por aí que a saúde das pessoas não tem preço. De maneira que pelo menos conceitualmente, minha força de trabalho não é explorada por ninguém. Então, salvo engano, eu julgo que não sou um proletário.
Mais que isso, olhem só que mimo este conceito, também no citado "Manifesto":

“Mas, o trabalho do proletário, o trabalho assalariado cria propriedade para o proletário? De nenhum modo.”

Então...
Eu sou assalariado. Tenho três empregos regidos pela CLT. Eu tenho - se me permitem - condições de ter propriedades. Uma bicicleta é uma propriedade. Um livro do Olavo de Carvalho é uma propriedade. Um IPhone é uma propriedade. Uma garrafa de Jack Daniel´s é uma propriedade. É bem bacana ter propriedades.
Deve ser mais bacana ainda ter fazendas de gado, aviões, Land Rovers e umas empresas. Perguntem ao filho do Lula como deve ser bom ter tudo isso.

Já passando dos quarenta, entendi que não deixarei herança para meus filhos. Para eles darei condições de uma formação universitária, cultural, moral e religiosa sólidas. É também para isso que trabalho. Para o Estado, eu deixo uma parte muito, mas muito substancial de meus rendimentos na forma de impostos retidos na fonte. Isso não me causa espécie desde que o Estado retorne para a sociedade o que me tomou em dinheiro. Fico bem feliz também ao considerar como minha propriedade um celular da hora, um livro novinho, um bourbon, esse laptop onde escrevo e uma ação de clube. Por que diacho eu tenho que ter vergonha de gostar disso?

Percebam que no parágrafo acima me defini como alguém que vai manter a classe social dos filhos os preparando para o mercado de trabalho através da educação; alguém que tem grande parte dos seus ganhos alijada aos impostos (não à mais-valia) e alguém que almeja ter como propriedades prioritariamente bens de consumo, e não bens de produção. Pois bem, antigamente se definia um sujeito assim como integrante da, ai ai, "Classe Média". É bem legal, me perdoem, ser da Classe Média.

Agora deixem-me citar essa passagem aqui, juro que será a última:

"Dinheiro como dádiva e dinheiro como empréstimo, era com perspectivas como essas que esperava atrair as massas. Donativos e empréstimos - resume-se nisso a ciência financeira do lúmpen proletariado (ou "lumpezinato"), tanto de alto como de baixo nível. Essas eram as únicas alavancas que o governante sabia movimentar. Nunca um pretendente especulou mais vulgarmente com a vulgaridade das massas."

Parece que estão falando do Bolsa Família? Parece que é um reaça falando do Lula? Não, é apenas Karl Marx falando de Luís Bonaparte, que restaurou a monarquia na França em... 1852! (no livro "18 Brumário")

Ocorre que a Esquerda descobriu a tempo que um dos (muitos) erros de Marx foi dizer que o trabalho do proletariado não cria propriedade. Cria SIM! E se o proletário tem propriedades e trabalha pra isso, pode ser que ele qualquer dia desses vire alguém de... Classe Média!!!

E quem sobra para ter os votos controlados? Os trabalhadores de sub-empregos, deseducados ao extremo, sem perspectivas, sem ideologia, que apenas sobrevivem, ou seja o lumpezinato.
Até algumas correntes trotskistas apontam para esta "brumarização" dos governos de esquerda, que por um lado exaltam que colocaram o proletariado na classe média, mas por outro demoniza esta mesma classe para justificar a manutenção do lumpezinato sob rédea curta, sob esmolas, sob controle, repetindo a política de Bonaparte execrada por... Karl Marx.

Eu preciso de um Estado que, para início de conversa não me odeie. Um Estado regulador dos serviços essenciais. Um Estado que possibilite que todos tenham propriedades. Um Estado que entenda que não é dono de nada e sim que tem legitimidade para gerir porque foi eleito pelos donos. Eu preciso de um Estado governado por gente decente, que tenha como sonho fazer o bem comum.

O PT já me mostrou que nunca fará este Estado.

Por isso eu voto Aécio 45.




sábado, 4 de outubro de 2014

O pirão nosso de cada dia

Eu estava num casamento que ocorria na igreja de São Judas, aquela perto da estação do metrô do mesmo nome em São Paulo. Trata-se de um templo respeitável, erguido seguindo o apelo popularíssimo do “santo das causas impossíveis”, cujas festas são muito concorridas. No aguardo da noiva, eis que ouço alguém comentar no banco de trás: “Puxa, o cara traiu Jesus e ainda merece uma Igreja dessa.” Meus impulsos de católico papa-hóstia, carola, reacionário, moralista se afloraram, mas me contive.
Pelamordedeus... não, herege, o cara que traiu Jesus só mereceu a forca pelas próprias mãos. Esse “Judas” que fez jus a toda aquela reverência era outro, chamado “Judas Tadeu”, diferenciando-se do “Judas Iscariotes” que vendeu Cristo por trinta dinheiros. Ao que parece os nomes eram meio raros naquele tempo. Na turma de Apóstolos de Jesus tínhamos dois chamados “Simão” – e neste caso em específico Jesus nos deu uma mão, chamando um deles de “Pedro”; dois com o nome de “Tiago” – curiosamente diferenciados pelas alcunhas de “Tiago Maior e Tiago Menor” (nunca entendi isso...) e finalmente os dois “Judas” – o Tadeu e o Iscariotes.
Enfim, a noiva entrou, foi uma bela cerimônia, etc e tal, mas eu nunca vi o rosto do sujeito que constatou o merecimento do traidor de Jesus. Ele, bem se diga, não estava revoltado com tal injustiça. O tom de seu comentário foi de constatação mesmo.

Vendo as denúncias de corrupção cada vez mais cabeludas nos jornais e vendo os resultados das pesquisas que apontam para mais um mandato de Dilma Roussef, lembrei-me da Copa do Mundo, e automaticamente do 7x1 e daí por extensão fui levado a Helmut Kohl.
Helmut Kohl foi primeiro-ministro da Alemanha, ainda da parte Ocidental, e que promoveu a reunificação das Alemanhas no fim da década de 80. Ele viu o muro de Berlim cair e conduziu o país a uma reunificação que parecia impossível. Foi um dos grandes homens do século 20.
Pois bem. Comprovou-se que o partido de Helmut Kohl recebera algo em torno de 600 mil dólares em doações ilegais para campanha eleitoral. Não se comprovou que Kohl soubesse destas doações. Não se comprovou que Kohl tenha se beneficiado pessoalmente deste dinheiro. Mas, ainda assim, por ser líder do partido envolvido no escândalo, derrubou-se o arquiteto da queda do Muro de Berlim sem dó nem piedade. O condutor de um dos fatos históricos mais relevantes da história do Mundo hoje não se elege nem para vereador na Alemanha.
É óbvio que isso não tem nada a ver com o 7x1. Mas é óbvio que tem.

Dilma Roussef vai ganhar nas urnas, de forma legítima, mais um mandato de presidente. Isso tem muito a ver com o fato de minha empregada ter sido inclusa no Bolsa Família, mesmo sendo registrada, recebendo cesta básica e vale-transporte. Ela chegou em casa ensinando minha esposa a conseguir tal benefício. Minha esposa tentou dizer que não teria direito pois trabalhava, assim como a nossa empregada, em um emprego registrado. Teve que ouvir que o dono do mercadinho da rua também iria receber o Bolsa Família, e que seria bom que ela se apressasse, pois podia ser que Dilma perdesse a eleição e “aquele viciado” cortasse o programa.

É só juntar as falas. Somos um povo que acha normal um apóstolo trair Jesus e merecer uma Igreja imensa. Devem achar que se pode trair um país e merecer o Palácio do Planalto. Somos um povo que acha que se pode sugar de uma empresa como a Petrobras que já esteve entre as maiores do mundo, até ao ponto de quebrá-la. E tudo isso pode, pois a corrupção existe desde que Adão comeu a maçã.
Um operário chegar à presidência derrubando preconceitos, numa realmente bela história de vida, tem salvo-conduto para arrotar contra as instituições republicanas.

Mas nós não demos essa liberdade apenas a Lula, nem a Dilma, nem ao PT. Essa libertinagem nós permitimos antes de tudo a nós mesmos. Somos o povo do “farinha pouca (ou muita), meu pirão primeiro”. Os alemães se envergonham daquele outrora considerado um estadista. Mas é porque se envergonhariam de si mesmos se tivessem sido pegos em igual delito. Os alemães se orgulham de sua seleção. Nós temos vergonha da nossa. Os alemães se orgulham de seu país. Nós não estamos nem aí pro nosso.


Até 2018...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Fenômeno e o General Romano

  Sinceramente nem vem ao caso as motivações políticas de Ronaldo. Basta que tenha razão. Como discordar dele? As obras para a Copa estão prontas? Foram feitas com dinheiro privado, conforme Lula nos assegurou? Ele irá nadando para a África, conforme nos prometeu, caso a Copa fosse um malogro? Aliás, onde se alugam jumentos para que os torcedores possam chegar aos locais dos jogos? Ficaremos orgulhosos ou envergonhados com este evento?
  Ao que parece, Ronaldo apenas deixou de fingir que não enxergava. Foi premido pelo ronco das ruas. Melhor dizendo, pelo silêncio das ruas quando o assunto é empolgação com a Copa. A pátria não parece mais ser a de chuteiras. Calça as sandálias da sensatez, na qual chegou por puro desalento - mas este não é quase sempre o caminho para a sensatez?
  Na empolgação do mandato que superava a crise do Mensalão, o lulopetismo acenava com o "legado" da Copa, na forma de melhorias de infraestrutura urbana, sem contar o lucro de vários setores. Já se tem como certo que quanto ao setor de turismo, só vai ter lucro o receptivo. A indústria já prevê prejuízo e os serviços não ganharão como esperavam. A infraestrutura... bem, é "babaquice", como candidamente nos lembrou Lula.
 
  Uma das acepções da palavra "legado" vem da Roma antiga: referia-se a um posto militar de alta patente, equivalente a um general que na época comandava uma legião (legatus legionis). Certamente é uma previsão otimista, mas esta Copa talvez nos deixe este tipo de "legado". Pode ser que os brasileiros estejam colocando um torneio de futebol em seu devido lugar, sem que os grandes problemas e questões na nação fiquem em suspenso até que a bola pare.
  Espaço para anarquia vai sempre haver, mesmo que travestida de civilidade. Mas para isso temos a polícia, com legitimidade para garantir a todos, TODOS, os brasileiros seus direitos. Tanto o de se manifestar, quanto o de não se manifestar. Sem falar nos constitucionais direito à propriedade e o de ir e vir. Ainda que para isso tenha que lançar mão da firmeza e até, vá lá, da violência, mostrando a força das nossas instituições.
  Mas de um jeito ou de outro uma parte substancial da população que não se deixa levar pelo ufanismo e patriotada aproveita agora os holofotes do mundo para selar sua insatisfação. Pode ser que os petistas, que tiram proveito político até dos velórios de suas mães, apontem tal efeito como uma "prova do aumento da consciência crítica das massas" e estaria assim chancelada a "política para a educação" do PT.
  Se tal postura crítica representar o legado, ou seja, o norte, o "general" de nossas ações enquanto cidadãos, é possível afirmar que a Copa valeu. Anda bem.
 
  Até porque, mesmo depois de nos livrarmos da caixirola - aquele chocalho de capoeira que Carlinhos Brown tentou nos empurrar, outro legado sempre dirá muito destes tempos atuais: os nomes dos elefantes brancos erguidos em desertos futebolísticos, que de tão vexaminosos nem mereceram as tradicionais alcunhas. A eles não foi conferida a honra nem do clássico "Estádio", tampouco do brasileiríssimo "Campo". Sobrou-lhes o pretensioso e circense "Arena".