Não há porque temer uma discussão sobre religião. Este blog discute política, o que para muitos é algo indiscutível, assim como futebol. Mas nenhum dos três é questão de gosto. Gosto é que não se discute, e há um chavão mais preciso que define a questão ao considerar que cada um tem o seu gosto, mas não o reproduziremos aqui a fim de não chocar tanto.
A visita do Papa Francisco suscitou, como nenhuma outra, manifestações anti-cristãs. Mais que isso, anti-religiosas. Na mesma medida, vimos exemplos de tolerância vindos até de ateus convictos. Pode ser que a tolerância seja um bem mais natural do ser humano, por isso é mais silenciosa. Meio como a respiração, que não faz barulho ao contrário da tosse. Daí que a intolerância, como todo sintoma de doença, pareça mais estridente e forte no começo, mas vai sendo vencida pela saudável e tácita convivência democrática entre discordantes. De maneira que o saldo, ainda que pareça pender para o outro lado, foi positivo. Não a favor necessariamente do catolicismo, mas do respeito pelas convicções alheias.
Há uma anedota envolvendo o ex-presidente João Figueiredo. Consta que ele, já general, recebeu um militar chinês em visita. Assustou-se com o despojamento da farda do colega, sem medalhas, condecorações, estrelas, enfim, sem nada que ostentasse o alto posto hierárquico daquele senhor. Figueiredo lhe perguntou a razão de tanto desprendimento, já que seria motivo de orgulho e até de justiça vestir uma farda digna de um general. A resposta teria sido "a farda de um general chinês é assim, para ele não se esquecer de que antes de mais nada é um soldado." Francisco, ao pedir um trono de madeira, ao recusar as vestes vermelhas e douradas, ao preferir a comida das freiras à do Copacabana Palace, talvez esteja querendo nos mostrar que antes de mais nada é um padre. Num primeiro momento parece óbvia, mas é uma escolha também política. Tanto é que, a despeito da virulência das manifestações anti-clericais, a pessoa de Bergoglio parece ter sido poupada de maiores ofensas (Ratzinger chegou a ser chamado de nazista quando veio), mas tal fato se deve mais à figura pessoal do Papa que propriamente a uma guinada de nossa sociedade em direção a uma maior tolerância.
Talvez por chegar num momento em que alguns barulhentos arrebentam agências bancárias em São Paulo para protestar contra o governador do Rio, a visita papal tenha levado em seu bojo os ventos contemporâneos desta Primavera Brasileira. Porém, a "vergonha do Várti" foi muito mais pela desorganização carioca - que poderia se dar em qualquer cidade do país - do que pela Marcha das Vadias. Uma, por assim dizer, manifestante, reproduzir uma cena d' O Exorcista e se empalar com uma cruz causa menos espécie que o lamaçal de Guaratiba.
O que os imberbes manifestantes vestidos de ninja não compreendem, talvez por imaturos, deseducados, prepotentes ou tudo isso junto, é que o carnaval deprimente que estão produzindo não demoverá os católicos de sua crença - tampouco a fortalecerá. Nem demoverão os políticos de suas práticas, mas neste caso as fortalecerão. Suas excelências já perceberam que se trata de mais espuma que maré. E vão passear com cachorrinhos de helicóptero, colocar multidões num lugar que até ontem era um mangue, votar pelo fim do foro privilegiado para poderem ser julgados em seus currais eleitorais, submeter peregrinos do mundo todo a um assalto a cada dez minutos, enfiar o Papa num corredor de ônibus, fazer o PIB equivaler à arrecadação de impostos e tomar medidas marqueteiras para que menos pessoas morram em corredores de hospitais.
O fato de todas estas mazelas serem recentíssimas e terem ocorrido após o início das manifestações só nos mostra que nossos governantes não são de Marte. Eles apenas são a expressão de um povo raso de idéias, de moral e de costumes.
"Um dos tristes sinais de nossa época é que demonizamos aqueles que produzem, subsidiamos os que se recusam a produzir e canonizamos os que reclamam." Thomas Sowell
domingo, 28 de julho de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
"Mensaleiros na cadeia!"
(Escrito por inspiração das idéias do Dr. Leonardo F. Zimmerman)
Jean Paul Sartre definiu o Maio de 68 na França desta forma numa entrevista dois anos depois: "Ainda estou pensando no que aconteceu, não compreendi muito bem. Não pude entender o que aqueles jovens queriam, então acompanhei como pude. Fui conversar com eles na Sorbonne, mas isso não queria dizer nada."
Sartre ia na frente em algumas manifestações e enfrentou a polícia. O general Charles de Gaulle, presidente francês à época, deu ordens para que não prendessem o filósofo. As manifestações uniam estudantes em greve e trabalhadores também em greve. Em uma das maiores passeatas, Daniel Cohen-Bendit, líder estudantil, organizou a distribuição dos manifestantes, e deu o clássico grito "A canalha stalinista vai para o fim do cortejo!" Foi o estopim da briga com o Partido Comunista Francês, que se retirou dos protestos, fazendo com que aquilo naturalmente evoluísse para um movimento apartidário. Ao contrário de Sartre, o presidente de Gaulle entendeu a mensagem que chegava daquele furdunço. Poderia ter convocado um plebiscito para reformar a política. Preferiu convocar eleições mesmo. Se tivessem que tirá-lo do governo, que fosse pelo voto - estadistas geralmente fazem assim. Depois chamou a Confédération Generále du Travail, a CUT deles, e concedeu aumento aos trabalhadores, terminando com a greve. Um mês depois vencia as eleições, indicando para primeiro ministro o conservador George Pompidou.
Viajemos no tempo, dez anos antes, para a Suécia (tenham paciência comigo...). Final da Copa do Mundo entre o time da casa e o Brasil. A segunda final de nossa seleção, oito anos depois do Maracanazo, que enterrara nossa auto estima. Antes dos cinco minutos do primeiro tempo, a Suécia abre o placar. Um a zero pros caras. O time brasileiro parou atônito por alguns segundos enquanto o estádio em Estocolmo explodia em vibração. De repente todos pareceram acordar e foram correndo buscar a bola dentro do gol de Gilmar, ainda caído. No meio da correria, Didi fez um gesto brando pedindo a bola. Pegou-a e todos foram correndo para o meio do campo. Menos ele. O "Príncipe Etíope", como o chamava Nelson Rodrigues foi caminhando calmamente de cabeça erguida, conduzindo a bola com a mão espalmada, como se a levasse numa bandeja. Naquela curta caminhada até o círculo central, Didi acalmou a todos e o jogo recomeçou com os ânimos serenados. Vavá empatou três minutos depois e o resto a gente já sabe.
Nas manifestações no Brasil de Junho último, um cartaz chamou atenção: era envergado por respeitáveis senhores de meia para terceira idade e dizia: "Os jovens de 1968 apoiam os jovens de 2013". Sartre morreu sem ter entendido o maio de 68. Esses aí do cartaz irão no mesmo caminho. E não entenderão o junho de 2013. Mas o cartaz fez sentido. Ambos foram movimentos apartidários, baseados na explosão de hormônios e na necessidade de se apanhar da polícia para justificar a própria existência. O espírito sessentaeoitista impregnou este movimento brasileiro de agora e o pôs a perder. O negócio começou a degringolar quando outro cartaz disse "Não é só pelos 20 centavos", e passou a ser por tudo. E para piorar, no governo central temos uma figura decorativa, que mal articula uma frase, à frente de um ministério mastodôntico e fisiológico. Há quem possa sentir falta de um de Gaulle. Mas falta mesmo faz um Didi.
A atitude de sair correndo a esmo, chutando a bola pra frente para recomeçar logo o jogo, é o melhor caminho para a derrota. Já há a sensação de que tudo não passou de uma marola, um espasmo que gerou reações igualmente espasmódicas do poder central. Pode ser que fosse uma utopia vencer os suecos na casa deles. Mas só seria possível com organização, foco e uma dose saudável de serenidade em meio ao natural arrojo do esporte. Foi isso que Didi quis passar aos companheiros. É perigoso que surja um dono da bola agora, mas a atitude cabe.
A birra com os políticos e com a política em geral não produziu um slogan. Movimento popular para dar certo no Brasil, precisa de frase pronta, que nada mais é que a expressão do que motiva as pessoas a estarem nas ruas. Foi assim com os últimos levantes de peso em nossa história recente. "Anistia ampla, geral e irrestrita", "Diretas já" e "Fora Collor". Falta alguém explicar porque em nenhuma cartolina apareceu a frase "Mensaleiros na cadeia".
O Supremo Tribunal Federal já decidiu pela culpa dos mensaleiros. Estão todos soltos, alguns "trabalhando" no Congresso. A melhor das Reformas Políticas começará quando todos forem presos. Pode ser utopia sim. E utopia é antes de tudo crença. Talvez comecemos a entender esses protestos quando considerarmos que foram movidos justamente pela descrença.
É legal sair às ruas, aquietar a consciência com a idéia de que se está fazendo história. Mas até para isso é necessário método. Não precisa ser nada complexo não. Em lugar nenhum do mundo houve passeata pelo voto distrital misto. Esse movimento das passeatas de junho minguou porque não fez o simples. Exultou-se o apoteótico, o barulho, a irreverência - noves fora os baderneiros - parou-se as avenidas. Mas acabou na quarta-feira de cinzas. Bradou-se contra a política tradicional e contra tudo que está aí, mas os mensaleiros foram deixados em paz.
Bastava um slogan, repetido como um mantra. José Dirceu e sua corja na cadeia seria sim didático, revolucionário, um feito para lavar a alma de uma geração. Mas por hora vamos de reforma na saúde, que a reforma política morreu com o natimorto plebiscito.
Falando em reforma da saúde, ocorreu-me outra frase para cartolina: "Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são." Essa apareceu em "Macunaíma", de Mário de Andrade. Foi publicado em 1928, 40 anos antes do Maio francês. Lembrei disso agora porque minha cachorrinha está latindo mais que carro de som de sindicato. Ela sempre faz isso quando tem muita formiga no quintal.
Sartre ia na frente em algumas manifestações e enfrentou a polícia. O general Charles de Gaulle, presidente francês à época, deu ordens para que não prendessem o filósofo. As manifestações uniam estudantes em greve e trabalhadores também em greve. Em uma das maiores passeatas, Daniel Cohen-Bendit, líder estudantil, organizou a distribuição dos manifestantes, e deu o clássico grito "A canalha stalinista vai para o fim do cortejo!" Foi o estopim da briga com o Partido Comunista Francês, que se retirou dos protestos, fazendo com que aquilo naturalmente evoluísse para um movimento apartidário. Ao contrário de Sartre, o presidente de Gaulle entendeu a mensagem que chegava daquele furdunço. Poderia ter convocado um plebiscito para reformar a política. Preferiu convocar eleições mesmo. Se tivessem que tirá-lo do governo, que fosse pelo voto - estadistas geralmente fazem assim. Depois chamou a Confédération Generále du Travail, a CUT deles, e concedeu aumento aos trabalhadores, terminando com a greve. Um mês depois vencia as eleições, indicando para primeiro ministro o conservador George Pompidou.
Viajemos no tempo, dez anos antes, para a Suécia (tenham paciência comigo...). Final da Copa do Mundo entre o time da casa e o Brasil. A segunda final de nossa seleção, oito anos depois do Maracanazo, que enterrara nossa auto estima. Antes dos cinco minutos do primeiro tempo, a Suécia abre o placar. Um a zero pros caras. O time brasileiro parou atônito por alguns segundos enquanto o estádio em Estocolmo explodia em vibração. De repente todos pareceram acordar e foram correndo buscar a bola dentro do gol de Gilmar, ainda caído. No meio da correria, Didi fez um gesto brando pedindo a bola. Pegou-a e todos foram correndo para o meio do campo. Menos ele. O "Príncipe Etíope", como o chamava Nelson Rodrigues foi caminhando calmamente de cabeça erguida, conduzindo a bola com a mão espalmada, como se a levasse numa bandeja. Naquela curta caminhada até o círculo central, Didi acalmou a todos e o jogo recomeçou com os ânimos serenados. Vavá empatou três minutos depois e o resto a gente já sabe.
Nas manifestações no Brasil de Junho último, um cartaz chamou atenção: era envergado por respeitáveis senhores de meia para terceira idade e dizia: "Os jovens de 1968 apoiam os jovens de 2013". Sartre morreu sem ter entendido o maio de 68. Esses aí do cartaz irão no mesmo caminho. E não entenderão o junho de 2013. Mas o cartaz fez sentido. Ambos foram movimentos apartidários, baseados na explosão de hormônios e na necessidade de se apanhar da polícia para justificar a própria existência. O espírito sessentaeoitista impregnou este movimento brasileiro de agora e o pôs a perder. O negócio começou a degringolar quando outro cartaz disse "Não é só pelos 20 centavos", e passou a ser por tudo. E para piorar, no governo central temos uma figura decorativa, que mal articula uma frase, à frente de um ministério mastodôntico e fisiológico. Há quem possa sentir falta de um de Gaulle. Mas falta mesmo faz um Didi.
A atitude de sair correndo a esmo, chutando a bola pra frente para recomeçar logo o jogo, é o melhor caminho para a derrota. Já há a sensação de que tudo não passou de uma marola, um espasmo que gerou reações igualmente espasmódicas do poder central. Pode ser que fosse uma utopia vencer os suecos na casa deles. Mas só seria possível com organização, foco e uma dose saudável de serenidade em meio ao natural arrojo do esporte. Foi isso que Didi quis passar aos companheiros. É perigoso que surja um dono da bola agora, mas a atitude cabe.
A birra com os políticos e com a política em geral não produziu um slogan. Movimento popular para dar certo no Brasil, precisa de frase pronta, que nada mais é que a expressão do que motiva as pessoas a estarem nas ruas. Foi assim com os últimos levantes de peso em nossa história recente. "Anistia ampla, geral e irrestrita", "Diretas já" e "Fora Collor". Falta alguém explicar porque em nenhuma cartolina apareceu a frase "Mensaleiros na cadeia".
O Supremo Tribunal Federal já decidiu pela culpa dos mensaleiros. Estão todos soltos, alguns "trabalhando" no Congresso. A melhor das Reformas Políticas começará quando todos forem presos. Pode ser utopia sim. E utopia é antes de tudo crença. Talvez comecemos a entender esses protestos quando considerarmos que foram movidos justamente pela descrença.
É legal sair às ruas, aquietar a consciência com a idéia de que se está fazendo história. Mas até para isso é necessário método. Não precisa ser nada complexo não. Em lugar nenhum do mundo houve passeata pelo voto distrital misto. Esse movimento das passeatas de junho minguou porque não fez o simples. Exultou-se o apoteótico, o barulho, a irreverência - noves fora os baderneiros - parou-se as avenidas. Mas acabou na quarta-feira de cinzas. Bradou-se contra a política tradicional e contra tudo que está aí, mas os mensaleiros foram deixados em paz.
Bastava um slogan, repetido como um mantra. José Dirceu e sua corja na cadeia seria sim didático, revolucionário, um feito para lavar a alma de uma geração. Mas por hora vamos de reforma na saúde, que a reforma política morreu com o natimorto plebiscito.
Falando em reforma da saúde, ocorreu-me outra frase para cartolina: "Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são." Essa apareceu em "Macunaíma", de Mário de Andrade. Foi publicado em 1928, 40 anos antes do Maio francês. Lembrei disso agora porque minha cachorrinha está latindo mais que carro de som de sindicato. Ela sempre faz isso quando tem muita formiga no quintal.
domingo, 7 de julho de 2013
Manual contra açougueiros
Não, não se trata de um manual para nos defender de vendedores de carne mal-intencionados. Trata-se de precaver a nossa população a respeito de algo que sofreremos dentro de muito pouco tempo: médicos, por assim dizer, formados em Cuba desembarcarão no Brasil aos borbotões, a fim de resolver os problemas de nossa saúde. As entidades médicas reagiram, foram contra a proposta, alegando que a proporção de médicos para cada grupo de brasileiros previamente definido chega a ultrapassar os números sugeridos pelos órgãos internacionais. Disseram que o problema da saúde na verdade está na estrutura, nas condições de trabalho e não na falta de médicos. Alguns setores da imprensa e da população reagiram nos xingando, sem razão, do que sempre xingaram com razão: "financistas", "elitistas", "reservadores de mercado", "cadê o sacerdócio?" perguntavam alguns.
Escapa ao senso comum que, assim como todo país que se considere civilizado, o Brasil não veta a entrada de médicos. Porém, para que exerçam a profissão, é necessário que se submetam a uma revalidação do diploma obtido em outro país. Não se trata de preconceito com a medicina cubana. Os muitos ganhadores de prêmio Nobel que de lá saíram, os vários centros de tratamento que são referência mundial, os papers que se publicam direto de Havana em inglês - essa língua do imperialismo - e a formação de ponta das mais de vinte escolas de medicina de Cuba, onde os alunos tem franco e ilimitado acesso às bases de dados médicos não conferem, absolutamente, o direito de se esquivar de um exame de revalidação.
A jogada de marketing foi interessante - imagino que os homens de marketing devam se remoer quando se associa seu ofício à arte de enganar bobos - mas se repete. Augusto Nunes bem lembrou a fixação pelo número de seis mil. Dilma já prometera seis mil creches na campanha eleitoral. Em visita ao Nordeste em maio, prometeu seis mil carros pipa. Agora vem com esses seis mil médicos.
Dá uma certa preguiça em discorrer sobre as reais intenções acerca da vinda destes colegas. Dizem que podem ser espiões, outros falam que se tratam de treinadores de guerrilha, tem a hipótese que seriam doutrinadores da fé socialista. Realmente seria melhor que tudo isso fosse verdade, pelo menos eles não fariam tão mal à saúde do povo.
Cuba se nega a passar por qualquer escrutínio, auditoria, ou o que quer que seja. Regimes fechados são assim mesmo. Apóiam-se em frases de efeito, precisam delas. A medicina de Cuba é defendida por dizeres que cabem numa cartolina de protesto, do tipo "80.000 crianças morrem todos os dias por doenças evitáveis, nenhuma delas é cubana." Tem criança brasileira nessa conta. Tem também (uns três ou quatro, mas tem) alguns suequinhos, japonesinhos, norte-americaninhos. Mas, vejam só, NE-NHU-MA criança cubana. Um médico formado nesta cultura totalitária, que escarnece do mundo e esconde as próprias estatísticas, é antes de tudo um propagandista, formado para cuidar da manutenção do regime, não de gente.
Pode ser que Dilma, no fundo, pretenda importar na verdade uns 120 médicos cubanos. Pois se formos levar em consideração a porcentagem de médicos que de lá vieram e foram aprovados nos exames de revalidação - 2% - é o que sobra dos seis mil. Porque eles terão que fazer a prova, que nem a turma que vem do Canadá, da Índia, da Bolívia, de Marte, do Vietnã do Sul...
Cuba não é uma democracia especial, é uma ditadura mesmo, sanguinária, que retira do seu cidadão os direitos de ir e vir, de livre se expressar, de chupar um chicabon e de detestar hollywood. O embargo norte-americano e a base de Guantánamo não justificam que os médicos lá formados não possam passar pelo Revalida. Mas passarão.
Tanto é que o egrégio Centro Acadêmico Adolfo Lutz (CAAL), da Faculdade de Medicina da Unicamp propôs uma reciclagem para que os coleguinhas cubanos possam passar nas provas. Eu já fiz parte dessa instituição e disse naquela época algumas coisas que hoje julgo terem sido bobagens. Mas nenhuma delas foi sob as bênçãos de um ministério. Este Centro Acadêmico já resistiu bravamente a uma ditadura no fim dos anos 60 e agora acena como um cordeirinho ideológico para outra ditadura. Mas deixemos esses meninos. Não são levados a sério nem na Faculdade. E terão que dizer às suas crianças: "Filho, o papai lutou a favor do governo"...
Até porque não deixa de ser boa a ideia do curso de reciclagem. Eu proporia a publicação de um manual para que a população leiga consiga, assim como nós, reconhecer já da anamnese um mau médico. Aceito sugestões para a confecção do manual, que não servirá para desmascarar um regime que aprendemos a admirar no colégio. Esse capítulo é mais complicado. O manual para açougueiros servirá apenas para defender nossa incauta população destes profissionais que exercerão esta nobre profissão sem que tivessem que prestar contas a ninguém.
Ah, diriam muitos, mas e os açougueiros brasileiros? Verdade. No governo do PT as faculdades de medicina dobraram no país, formando médicos com qualidade por vezes sub-cubana. Mas essa questão logo será resolvida. Eu me lembro do atual ministro da Saúde bradar em uma assembleia do CAAL - quando o CAAL ainda fazia assembleias - que tal estado de coisas era uma vergonha, que não passavam de fábricas de diplomas, que eram fruto da lógica capitalista, etc, etc, etc...
Escapa ao senso comum que, assim como todo país que se considere civilizado, o Brasil não veta a entrada de médicos. Porém, para que exerçam a profissão, é necessário que se submetam a uma revalidação do diploma obtido em outro país. Não se trata de preconceito com a medicina cubana. Os muitos ganhadores de prêmio Nobel que de lá saíram, os vários centros de tratamento que são referência mundial, os papers que se publicam direto de Havana em inglês - essa língua do imperialismo - e a formação de ponta das mais de vinte escolas de medicina de Cuba, onde os alunos tem franco e ilimitado acesso às bases de dados médicos não conferem, absolutamente, o direito de se esquivar de um exame de revalidação.
A jogada de marketing foi interessante - imagino que os homens de marketing devam se remoer quando se associa seu ofício à arte de enganar bobos - mas se repete. Augusto Nunes bem lembrou a fixação pelo número de seis mil. Dilma já prometera seis mil creches na campanha eleitoral. Em visita ao Nordeste em maio, prometeu seis mil carros pipa. Agora vem com esses seis mil médicos.
Dá uma certa preguiça em discorrer sobre as reais intenções acerca da vinda destes colegas. Dizem que podem ser espiões, outros falam que se tratam de treinadores de guerrilha, tem a hipótese que seriam doutrinadores da fé socialista. Realmente seria melhor que tudo isso fosse verdade, pelo menos eles não fariam tão mal à saúde do povo.
Cuba se nega a passar por qualquer escrutínio, auditoria, ou o que quer que seja. Regimes fechados são assim mesmo. Apóiam-se em frases de efeito, precisam delas. A medicina de Cuba é defendida por dizeres que cabem numa cartolina de protesto, do tipo "80.000 crianças morrem todos os dias por doenças evitáveis, nenhuma delas é cubana." Tem criança brasileira nessa conta. Tem também (uns três ou quatro, mas tem) alguns suequinhos, japonesinhos, norte-americaninhos. Mas, vejam só, NE-NHU-MA criança cubana. Um médico formado nesta cultura totalitária, que escarnece do mundo e esconde as próprias estatísticas, é antes de tudo um propagandista, formado para cuidar da manutenção do regime, não de gente.
Pode ser que Dilma, no fundo, pretenda importar na verdade uns 120 médicos cubanos. Pois se formos levar em consideração a porcentagem de médicos que de lá vieram e foram aprovados nos exames de revalidação - 2% - é o que sobra dos seis mil. Porque eles terão que fazer a prova, que nem a turma que vem do Canadá, da Índia, da Bolívia, de Marte, do Vietnã do Sul...
Cuba não é uma democracia especial, é uma ditadura mesmo, sanguinária, que retira do seu cidadão os direitos de ir e vir, de livre se expressar, de chupar um chicabon e de detestar hollywood. O embargo norte-americano e a base de Guantánamo não justificam que os médicos lá formados não possam passar pelo Revalida. Mas passarão.
Tanto é que o egrégio Centro Acadêmico Adolfo Lutz (CAAL), da Faculdade de Medicina da Unicamp propôs uma reciclagem para que os coleguinhas cubanos possam passar nas provas. Eu já fiz parte dessa instituição e disse naquela época algumas coisas que hoje julgo terem sido bobagens. Mas nenhuma delas foi sob as bênçãos de um ministério. Este Centro Acadêmico já resistiu bravamente a uma ditadura no fim dos anos 60 e agora acena como um cordeirinho ideológico para outra ditadura. Mas deixemos esses meninos. Não são levados a sério nem na Faculdade. E terão que dizer às suas crianças: "Filho, o papai lutou a favor do governo"...
Até porque não deixa de ser boa a ideia do curso de reciclagem. Eu proporia a publicação de um manual para que a população leiga consiga, assim como nós, reconhecer já da anamnese um mau médico. Aceito sugestões para a confecção do manual, que não servirá para desmascarar um regime que aprendemos a admirar no colégio. Esse capítulo é mais complicado. O manual para açougueiros servirá apenas para defender nossa incauta população destes profissionais que exercerão esta nobre profissão sem que tivessem que prestar contas a ninguém.
Ah, diriam muitos, mas e os açougueiros brasileiros? Verdade. No governo do PT as faculdades de medicina dobraram no país, formando médicos com qualidade por vezes sub-cubana. Mas essa questão logo será resolvida. Eu me lembro do atual ministro da Saúde bradar em uma assembleia do CAAL - quando o CAAL ainda fazia assembleias - que tal estado de coisas era uma vergonha, que não passavam de fábricas de diplomas, que eram fruto da lógica capitalista, etc, etc, etc...
segunda-feira, 17 de junho de 2013
A vaia cordial
"Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade: daremos ao mundo o 'homem cordial'."
Sérgio Buarque de Hollanda
Em nota a esta frase, extraída de "Raízes do Brasil", o autor presta o devido reconhecimento ao criador da expressão "homem cordial" como tendo sido o escritor Ribeiro Couto, meio século antes. E já adverte a respeito de interpretações errôneas da expressão, que não sugere um "homem polido" ou educado, ou cheio de mesuras. "Cordial" vem de "coração". Sim, somos um povo hospitaleiro, generoso, que não consegue dizer diretamente um "não", que se despede dizendo "depois te ligo!". Mas, adverte Sérgio Buarque, "seria engano pressupor que estas possam significar boas maneiras, civilidade. São antes de tudo expressões de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante." Ressalta que um povo realmente polido, como o japonês, usa a polidez como defesa ante a uma sociedade com preceitos rígidos e naturalmente opressores. A lhaneza no trato, típica do japonês, equivaleria a "um disfarce, que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções." Assim, o indivíduo conseguiria manter sua "supremacia ante o social".
Ele continua, afirmando que "nenhum povo está tão distante desta noção ritualista da vida que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez." Para o "homem cordial", viver em sociedade significa fugir da apavorante responsabilidade de ter que se haver consigo mesmo, com suas obrigações, limitações, frustrações e outros "ões". Seria uma forma de nos lançarmos aos outros, para enfim nos reduzirmos, enquanto indivíduos, à nossa parcela "social, periférica, que - no brasileiro - tende a ser a que mais importa."
Eis um traço fundamental de nosso povo. Um povo que desconhece qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo - até quando o que menos cabe seja a emoção. São abundantes os relatos de mercadores antigos que percebiam nos negociantes brasileiros a necessidade de fazer amigos e não clientes fiéis. O grau de confiança nas transações adviria do grau de amizade entre as partes ("confie em mim, sou seu amigo") e não de um pacto moral.
Fatalmente, estas características iriam redundar em aspectos que tanto nos dizem respeito. Temos horror ao distanciamento individual. Horror à qualquer liturgia, a começar da religiosa. Esta é a terra dos cultos sem obrigações, sem reflexões intimistas, das missas aeróbicas, das manifestações religiosas que dispensam o fiel de "todo esforço, toda diligência, toda tirania sobre si mesmo." O afrouxamento, a humanização, a democratização dos ritos religiosos, mais exuberantes na forma que no conteúdo, "corrompeu pela base nosso sentimento religioso." Nem vamos tão longe assim: tente explicar a um italiano o que é ser um católico não-praticante.
Um povo que só aceita de bom grado "as disciplinas ditadas pela simpatia e pela concórdia" não toma fundo conhecimento de nenhuma instituição mais formalizada de sociedade, a começar pela família. Repare nas escalações das outras seleções: os jogadores ostentam seus nomes de família. Raramente isso não acontece. Já no nosso time, isso não ocorre. Sei lá, tirando o Hernanes, é tudo prenome ou apelido mesmo. Já imaginaram um "Hulk" em outra seleção? Nossos maiores ídolos no futebol respondem por seus apelidos - Pelé, Garrincha, Zico - ou por diminutivos, como os Ronaldinhos. Sérgio Buarque já apontava para estes tópicos em seu texto. E a subversão da família leva fatalmente à subversão do Estado, por vezes confundido com a própria extensão do lar. O autor é claro sobre isso: "O Estado não é uma ampliação do círculo familiar, e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo." E sai-se com Sófocles para mostrar esta incompatibilidade:
"E todo aquele que, acima da pátria, coloca seu amigo, eu o terei como nulo."
Alguns milhares de pessoas xingaram Dilma Roussef na abertura da Copa das Confederações. Trata-se de uma platéia ainda pouco acostumada a lugares marcados em estádio. Estavam sim, acostumados a guardar lugares para os amigos. Estão acostumados a comprar de DVD´s piratas, a cartas de motorista, e principalmente a dizer que fazem tudo isso por culpa da crônica falta de fiscalização de governos que eles mesmo elegeram.
Nós não sabemos o que é "fair play", monsieur Blatter. Nós cavamos pênalti e achamos que ganhar roubado é mais gostoso. Xingamos a presidente da mesma forma que mostramos a língua para nossos pais. Estávamos protegidos pela turba, pela massa, pela sociedade, pela pouca noção de nós mesmos enquanto indivíduos. Não vaiamos a alta da inflação, a corrupção, o caos na saúde, a educação vergonhosa. Vaiamos a liturgia, o ritual, o respeito às instituições - porque a gente acha isso muito, muito divertido e libertador.
Xingamos a presidente porque somos cordiais.
Xingamos a presidente porque somos cordiais.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
É proibido permitir
"O segredo de ser chato é dizer tudo."
Voltaire
E como eu estou mesmo por conta de aporrinhar, vai aí mais outra citação. Essa no corpo do texto mesmo, até porque não dá para tirar nada desta estrofe de Zé Ramalho:
"Já que tudo depende de boa vontade, é de caridade que eu quero falar. Daquela esmola na cuia tremendo: ou mato, ou me rendo, é lei natural. Num muro de cal espirrado de sangue, de lama, de mangue, de rouge e batom. O tom da conversa que ouço me criva de setas, de facas, de favos de mel. É a peleja do diabo com o dono do céu."
O debate, seja lá de que tema for, anda pobre. Na falta de argumentos, sobram sentimentos. Quando menos se espera lá estão dois lados da questão, não "divergentes" mas "inimigos". Vira um Fla x Flu, com palavras de ordem, insultos, escárnios e a questão a ser discutida vai ficando em segundo plano. Este ponto foi bem lembrado por Nelson Motta num artigo.
Quando eu era residente de Psiquiatria, todos os professores, sem exceção, pregavam prudência no debate sobre a questão das drogas, notadamente no que se referia à liberação. Chegavam a dizer que esta discussão não era só nossa, que mais gente opinaria, e que, mesmo que fôssemos autoridades acadêmicas, a questão era muito complexa para que tivéssemos a última palavra. Então, se quiséssemos mesmo entrar neste debate, que fosse mais como mediadores. Eram tempos em que se admitiam matizes de cinza e não apenas preto ou branco.
Assisti Ronaldo Laranjeira no Roda Viva. Pelo que disseram ele faz parte da turma dos proibicionistas, que por sua vez pregam a proibição da liberação das drogas. Os que pregam a liberação da liberação seriam os liberacionistas (não confundir com "liberais" porque esse rótulo soaria como grande ofensa). A bancada de entrevistadores de Laranjeira, pelo que vi, era composta de luminares do liberacionismo, com a exceção de Mara Menezes, coordenadora do Amor Exigente. Pode ser a linha editorial do programa, mas o quase linchamento do professor da Escola Paulista de Medicina ilustra bem o tom que este debate infelizmente assumiu. Uma proposta feita por Reinaldo Azevedo seria fazerem um outro Roda Vida, desta vez com um liberacionista sendo entrevistado por proibicionistas (ele tava brincando, gente).
Bem, as propostas para abordagem dos dependentes químicos aí na praça têm vários méritos. A parte mais polêmica, no caso da proposta do Estado de São Paulo seria a tal "Bolsa Crack" - um cartão a ser dado para a família a fim de possibilitar o tratamento do dependente. Chama "Projeto Recomeço" e é sim, uma idéia interessante desde que sirva apenas e tão somente para um recomeço - sob o risco de se tornar um novo Bolsa Família, cujos recursos tem gente que recebe há uns dez anos mas dizem que ainda não deu para recomeçar... Mas não é dessa caridade que eu quero falar.
Olha só: usar drogas faz mal. Tem umas que fazem mais mal que outras, ok. Também temos o álcool e o tabaco liberados, com grande custo de vidas. Certo. Mas a cruzada para liberação das drogas soa como bandeira de utopia. Algo já datado, de um tempo em que se gritava "é proibido proibir". O que temos na dura realidade é uma total falta de condições práticas para a liberação das drogas. A propósito, o termo "descriminalização" nunca coube. Neste país nem assassino que põe fogo por conta de 30 reais vai preso, que dirá usuário de drogas. A Justiça Terapêutica, a Internação Compulsória e mesmo a Involuntária já fazem parte de nosso ordenamento jurídico faz tempo. Ademais, é consenso que a patrulha policial coíbe, sim, o uso. Mas vamos colocar a camisa de um destes dois times, e portanto debater que nem torcedor. Eu me rendo:
O argumento que o tráfico de drogas existe só porque elas são proibidas já dá preguiça pela presença deste "só". Há tráfico de DVD´s, de cigarros de nicotina, de uísque, de notebooks, e pelo que consta são produtos liberados. A violência do tráfico de drogas é proporcional ao lucro que ele dá. Assim, os traficantes do Morro do Borel disputam mercado com os do Complexo do Alemão a fim de ganharem mais dinheiro. O melhor jeito de fazer isso, na concepção deles, é dando tiro. Fossem as drogas liberadas, os produtores devidamente regulamentados competiriam entre si da mesma maneira com que fazem hoje os produtores de cigarros de nicotina, portanto sem tiro, é isso? E quem seriam estes produtores? A Souza Cruz? A Philip Morris? Vale dizer que são multinacionais, e teriam que se haver em outras plagas com a pecha de fabricarem drogas que no Brasil são lícitas, mas proibidas pelo resto do mundo. Já é fato consumado que a Brahma, quando encampou a Antarctica, conseguiu calar a grita da Kaiser ao fomentar no Estados Unidos que a Coca Cola fabricava cerveja no Brasil. A alternativa talvez fosse uma estatal, que poderia se chamar "Narcobrás" (essa eu ouvi do professor Artur Guerra), e pelo que se projeta iria ter um grande lucro.
Quanto aos traficantes, imagina-se que, uma vez as drogas liberadas, ficariam sem função. Bem, quanto se espera que a Narcobrás cobre por unidade de droga? A julgar pelos impostos imbutidos nas drogas atualmente lícitas, ia sair meio caro. Basta que a turma do Alemão cobre bem mais barato (escala para isso eles têm) e lá vamos nós de novo. Ainda assim, se a Narcobrás colocasse um preço, digamos competitivo, a turma do tráfico iria fazer o quê? Prestar consultoria? Pegar busão com a carteira de trabalho no bolso para arrumar trampo de gente de bem? Os contraventores do tráfico, senhores, não escolheram o tráfico. Escolheram a contravenção. Eu sei lá o que fariam, eu não penso como traficante. Mas eu sei que algo eles fariam. O que os anima a abraçar uma vida de crime é, dentre outras muitas coisas, um Código Penal ridículo.
E os policiais corruptos, que sujam a farda de sangue e de lama? Vão continuar sujando, o que não falta neste país é oportunidade para corrupção. Eu também não sei pensar como um policial corrupto, não sei como fariam.
E os policiais corruptos, que sujam a farda de sangue e de lama? Vão continuar sujando, o que não falta neste país é oportunidade para corrupção. Eu também não sei pensar como um policial corrupto, não sei como fariam.
Diplomaticamente, então, nós estamos prontos para suportar a pressão por sermos o único país do mundo com as drogas liberadas? Tá bom, levaríamos a América do Sul de roldão (a América Latina é meio sem chance, pois o México faz fronteira com um país muito poderoso, que é totalmente contra essa conversa de liberar geral). Mas mesmo em nosso quintal... O que achará a Colômbia, que vem a duras penas expurgando o terrorismo do narcotráfico? O que achará a Argentina, principalmente ao saber da posição do Brasil? Talvez a Bolívia se empolgue...
E, para não perder o costume, temos o brasileiríssimo coitadismo travestido de caridade. Já estão falando em cotas de emprego para dependentes em recuperação. Em nome de uma causa pretensamente humanitária, estão nos impondo uma agenda, como uma cuia trêmula. Para os dependentes químicos graves, matar ou morrer é lei natural. Para a maioria disposta apenas a morrer, o Estado deve sim oferecer ajuda, sempre com contrapartidas. Mas a minoria disposta a matar deve ser severamente cerceada nessa disposição. Lei serve pra isso.
O assunto é delicado, mas não justifica o tom atual da conversa, com troca de setas e de farpas. É preciso enxergar nuances, tem muita gente morrendo.
E só porque propus um tom ameno, deixa dizer uma coisa: eu já faço parte de times que me dão muito trabalho. Sou católico, reacionário, palmeirense. Dos times que participo, o que mais me dá orgulho e razão de viver é o time composto por aquele que o João Miguel chama de "Papai". Esta seleta equipe já tem brigas internas pesadas demais, diárias, de maneira que não me sobra paciência para ingressar em mais nenhuma panelinha. Tudo isso para dizer, com todo respeito, que "proibicionista" é o cacête...
terça-feira, 14 de maio de 2013
Um breve tratado do cinismo
"Cínico é aquele que ao sentir cheiro de flores começa a procurar pelo velório."
H. L. Mencken
Zapeio pelo CQC e vejo o repórter entrevistando os deputados federais pelos corredores do congresso. Primeiro fala João Paulo Cunha, que aos berros, disse não estar ainda condenado. O repórter admite que caberia ainda recurso (não cabe não) e João Paulo continua a vociferar que ainda não tinha sido condenado. Paulo Maluf repetiu este mantra milhares de vezes. As circunstâncias o levaram a parar, da mesma forma que levarão João Paulo a parar também. Nenhum dos dois, a rigor, estava mentindo. Estariam se dissessem que eram inocentes, mas não lhes ocorreu estropiar a verdade desta forma. João Paulo está, como Maluf esteve, sendo cínico.
O dicionário Houaiss nos ensina que o verbete "cinismo" sofreu uma "derivação por extensão de sentido", ou seja, de uma Escola Filosófica, que pregava o desapego a tudo, passou também a designar uma "atitude de descaso às convenções sociais e pela moral vigente; imprudência; desfaçatez; descaramento."
Dentre os filósofos cínicos havia como expoente um sujeito chamado Diógenes, que segundo consta, morava num barril. Mas ao contrário do Chaves, esta tinha sido uma escolha do filósofo. Consta ainda que Alexandre, o Grande um dia parou com seu cavalo diante do barril e ordenou que lhe pedisse qualquer coisa, pois era um grande admirador seu. Diógenes respondeu solenemente "Peço-vos que saia da frente do meu sol." Uma resposta cínica, nos dois sentidos.
De alguma forma nós tendemos a perdoar, ou pelo menos a relevar as pessoas cínicas. João Paulo desceu aos infernos, indo de presidente da Câmara a um dos líderes do Mensalão. O cinismo é uma expressão do seu desespero e nem deve fazer parte de sua personalidade. Os cínicos de escol em geral são sutis, são mordazes, são corajosos, são acima de tudo pessoas inteligentes. Não se vê cínicos deste quilate no cenário político atual. Na verdade o cenário atual carece de quilates, mas isso é outra história.
Continuando o programa, o repórter aborda o deputado petista Vicente Cândido e o pergunta sobre se seria bom o PT comandar o Supremo. "Seria". O repórter adverte que de certa forma isso já acontece, pois o PT indicou grande parte dos ministros, de Gilmar Mendes a Luiz Fux, passando pelo famigerado Joaquim Barbosa. A resposta do deputado Vicente Cândido: "Mas eles não seguiram a cartilha." O repórter pergunta se a cartilha seria inocentar petistas, e aí eu já estava enojado demais para lembrar da resposta de Vicente Cândido.
Consigo lembrar que não chegou a ser uma resposta cínica, até porque ele tentou se expressar em jurisdiquês. Mas responder, assim candidamente (sem trocadilho) que o Executivo petista teria que intervir no STF porque os ministros indicados não "cumpriam com a cartilha" é para início de conversa falta de decoro. A noção de totalitarismo dos petistas faz por vezes que eles se dêem a este tipo de descaramento. Nada vai acontecer amanhã, e nem dentro do próprio CQC esta declaração repercutiu - preferiram bater em João Paulo. Vão continuar os Vicentes Cândidos a tentar surrupiar do STF sua autonomia, fundamental a uma República digna deste nome, a fim de que cumpram sua cartilha.
O adjetivo que merece a resposta de Vicente Cândido não remete a nenhuma Escola Filosófica grega. Remete sim, àquele objeto que ficava na coluna lateral, na parte interna dos saudosos Fuscas, entre os bancos da frente e os de trás. Tinha forma de gota e servia para que nele entrelassássemos a mão para melhor suportar os solavancos de um veículo feito para andar no deserto.
Todos devem se lembrar dos vários nomes que o objeto tinha. Nenhum era publicável. Mas todos definiriam com perfeição não apenas a resposta, mas a postura de homem público de Vicente Candido e dessa petralhada parasita que nos assola.
sábado, 6 de abril de 2013
O senso dos cavalos
"As épocas são mais inteligentes ou menos inteligentes (...) Coube-nos por fatalidade uma das épocas mais débeis mentais e espantosas da história."
Nelson Rodrigues
A frase é de um cinismo atroz, mas o que espanta é que se mantém atual. O Brasil faz questão de se manter nestes tempos débeis mentais desde a colônia. Explicações temos aos montes, mas uma das melhores é esta fala da presidente Dilma:
É certo que a Presidente não tem ainda prática de falar de improviso, mesmo depois de dois anos de mandato e de um treinamento de imagem a que poucos se submeteram. Pode ser que esta prática nunca venha. Deu para entender também que seu governo tem um forte compromisso com a educação. Mas a fala beira o tatibitate, como aliás várias falas de Dilma. Se ela se expressa desta forma para nos dizer algo que todos os nossos governantes desde Tomé de Souza já disseram, imagine como vai explicar a comédia que virou o Enem ou a total falta de projeto para o ensino público em todos os níveis. Um povo que faz as redações que faz, elege uma presidente que não passaria em concurso de oradora de formatura de ginásio.
E um povo mal-educado, inculto e embrutecido se deixa levar muito, mas muito facilmente pelo senso comum e o elege como religião, na pior acepção do termo "religião". Numa democracia, e ainda somos uma, é lícito que as pessoas tenham opiniões e que o respeitoso debate dos contrários sirva para nos engatar num processo civilizatório. Mas numa sociedade, onde por falta de educação o senso comum é lei, a democracia fica ameaçada, pois qualquer opinião fora do dito senso soa como delito. Por isso cabe aqui a expressão em inglês para senso comum - "horse sense".
Dois deputados julgados e condenados pela Suprema Corte deste país estão na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Já é um acinte eles estarem na Câmara, ainda mais nesta Comissão. Esta Câmara é presidida por um deputado que representa o que de mais arcaico há em nossa política, e tem no Senado ao lado um presidente que é do mesmo naipe. Bem se diga que a posse de Renan Calheiros mereceu um abaixo-assinado, mas foi algo até pueril se comparado com a reação à presença de Marcos Feliciano na Comissão de Direitos Humanos.
O tal pastor disse, sim, um monte de bobagens sobre a união de homossexuais. Que se discorde dele e que se estranhe sua presença, logo na Comissão de Direitos Humanos. O que assusta é a virulência da discordância, que em nenhum momento foi sequer sugerida nos casos de Calheiros, Genoíno, João Paulo Cunha e Henrique Alves. Também é certo que todos têm pleno direito de escolher contra o que protestar. Mas ninguém protestou até hoje contra o artigo 226 da Constituição, que diz textualmente:
"Art. 226, § 3º. Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento."
Pronto, é só pressionar o Congresso para mudar este artigo. Vale sair por aí fazendo o escambau, se beijando na boca, cantora dizendo que tem esposa. Vale até dizer que a constituição é homofóbica. Eram outros tempos e outras demandas em 1988, já estaria mesmo na hora de mudar isso. Mas não se vê nem os deputados comprometidos com a causa discutindo este artigo.
Discutir artigo constitucional é meio chato, e pode ser que apareça jurista, teólogo, enfim, gente muito preparada para avisar que o artigo não necessariamente fere o senso comum. Mais fácil sentar o porrete no pastorzinho. Ele feriu o senso dos cavalos.
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