Vendo a reação dos mensaleiros José Dirceu e José Genoíno ao se entregarem à polícia, ocorreu-me um trecho de um conto de Machado de Assis chamado "O Lapso". Ele cita uma teoria de Charles Lamb, um ensaísta inglês, que dizia haver "duas grandes raças humanas - a dos homens que emprestam e a dos que pedem emprestado. A primeira contrasta pela tristeza do gesto com as maneiras rasgadas e francas da segunda."
Estes senhores tomaram emprestado não só nosso dinheiro. Tomaram também, a fundo perdido, muito do nosso respeito pela política. O principal argumento dos petistas empedernidos para se defender do mensalão é que "todo mundo rouba". Devem achar que atirar lama os defende de alguma coisa. Não vão descansar enquanto o suposto "mensalão Tucano" não for completamente julgado. Chamei de suposto para manter a coerência, visto que o mensalão Petista foi chamado de suposto até ser confirmado pelo STF. Já houve, aliás, uma condenação, neste que se configura como um rascunho muito bem urdido do que viria a ser o mensalão Petista, tanto na operação quanto na atuação da justiça: Nélio Brant, ex-diretor do Banco Rural, foi condenado a nove anos de cana, mas recorre em liberdade. Como a denúncia se deu antes do esquema petista, este processo envolvendo a campanha tucana se mostra com um desenrolar mais lento ainda. Bonito de se ver é a petezada reclamando da lentidão. Citemos Lewandovski: "Estamos com pressa de quê?"
Cinismos a parte, o julgamento da ação penal 470 caminha para seu cabo deixando um rastro de justiça. Levou um tempo imenso. Deu-se ampla voz ao contraditório. Respeitaram os ditames regimentais e até os nem tão regimentais assim - caso dos embargos infringentes, que foram aceitos para os crimes de formação de quadrilha, mas não para os de corrupção. Deixou-se claro, claríssimo, que aquela corte não se vergaria ao grito (grito?) das ruas.
Mas a sensação é mais de melancolia que de redenção. Melancólico ver o PT jogar sua história no lixo e adotar ladrões de estimação. Nem o DEM fez isso com Demóstenes Torres. Melancólico perceber a chance que foi perdida. Que o que sobrou do governo Lula foi uma presidente que mal sabe falar, enredada num ministério de bufões, mas que será melancolicamente reeleita. Melancólico ver que ainda tem gente que acredita que mesmo com a prisão de seus principais e mais próximos "companheiros", Lula não devia saber de nada.
Comemorar quando a Justiça faz justiça é coisa de república de bananas. Deixemos a festa com os "guerreiros do povo brasileiro". Que ergam os punhos e peçam julgamento - sempre para os outros. A nós restará a tristeza. A tristeza dos que emprestam.
Somos de outra raça. Ainda bem.
"Um dos tristes sinais de nossa época é que demonizamos aqueles que produzem, subsidiamos os que se recusam a produzir e canonizamos os que reclamam." Thomas Sowell
sábado, 16 de novembro de 2013
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Reconsidere, Dr Alexandre
"Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.(...) Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas."
Evangelho segundo S. Mateus 5, 39-41
No filme Spartacus, com Kirk Douglas, há uma cena emblemática: os escravos revoltosos, finalmente acossados pelos soldados romanos, escutam o brado do centurião: "Quem de vós sois Spartacus?" O líder da revolução escrava ainda titubeava quando viu um dos seus se levantar e gritar "eu sou Spartacus!" Não deu muito tempo para reação, pois logo outro acorreu "Mentira! Eu sou Spartacus!" e mais outro "Eu sou Spartacus!" e um após outro se levantaram e logo o grupo gritava em uníssono "Eu sou Spartacus!", enquanto o verdadeiro permanecia calado.
Logo depois do voto de Celso de Mello, o blog de Marcelo Centenaro lembrou um discurso proferido por Joseph Brodsky, onde nos explica claramente que o real sentido daqueles versículos do Evangelho de Mateus nos incitavam não à humildade mas sim à resistência. E o melhor caminho para tanto é o individualismo, "alguma coisa que não possa ser compartilhada, como sua própria pele, nem mesmo por uma minoria". Pois o Mal, ele deixa claro, "tem loucura pela solidez. Ele sempre procura os grandes números, o granito confiante, a pureza ideológica, os exércitos bem treinados." Acertadamente ele presume que a atração do Mal por estas coisas "tem a ver com sua insegurança inata." E chega certeiro ao diagnóstico sobre as razões do triunfo do Mal: "E ele triunfa em muitas partes do mundo e dentro de nós mesmos, dados seu volume e intensidade, dado em especial o cansaço dos que a ele se opõem."
Tivemos hoje a renúncia do presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná, Alexandre Blay. Ao ter que conferir a licença para os cubanos poderem exercer a medicina em seu Estado, contrariando todas as determinações de seu e de outros Conselhos acerca deste tipo de caso, e ameaçado por toda uma estrutura subserviente, que vai desde o MST - que invadiu o CRM do Ceará pela resistência deste - até um ordenamento jurídico opressivo, típico de ditaduras, que manda conceder a licença aos cubanos ao mesmo tempo que lhes nega o direito de pedir asilo político, ele capitulou. E tinha razões para tanto. Porém ao tomar tal compreensível decisão ele se põe a serviço da farsa galopante que nos atropela diariamente e vai tentando minar nossa capacidade de reação.
Os tempos são assustadores, e a construção de uma cultura bolivariana está a todo vapor. Inteligências já começam a ser cooptadas. Temos já Ives Gandra Martins dizendo coisas estranhas sobre o julgamento do Mensalão. Já foi convertido a petista histórico. Cada um depõe suas armas como pode ou como quer. A virulência fanática da argumentação petezóide nos agride, seja a nos chamar de burgueses, fascistas, macacos; seja a nos fazer temer por nossa própria integridade física. O que se vê são blocos rígidos, graníticos. Um exército de anônimos, anulados enquanto pessoas e pensantes apenas em nome de uma causa. Quem discorda é só mais um traidor, que merece por enquanto todo o desprezo. Por enquanto...
O poder desnorteador de um ato individualista - termo desvirtuado pela esquerda como sinônimo de egoísmo - sempre será imenso e eficaz. Faz aumentar exponencialmente a insegurança do Mal. Entregar a outra face, mostrar que aquilo não nos atinge e que estamos dispostos a caminhar o dobro do que estão dispostos a nos impor é a nossa estratégia. Não pegar em foices e facões para enfrentar o MST - nós não sabemos fazer isso. Apenas não consertar a porta arrombada, no aguardo de novas invasões. Venham, pois vamos continuar resistindo. Não repetir palavras de ordem, com olhos esbugalhados e lançando perdigotos, mas lendo, lendo, preparando-se para a contra argumentação embasada, fortalecendo nossas ideias e as tendo se não como ideais, pelo menos como nossas. Legitimamente nossas.
Não precisamos de tutela nenhuma, precisamos nos colocar para que mais gente não precise. Somos capazes de escolher o que vamos ver, ler, comer, ouvir, por onde navegaremos na rede e nos mares. Queremos um governo que promova a liberdade, inclusive de errar.
Trazer pobres coitados premidos pela mais longeva e sanguinária ditadura do ocidente e a eles conferir o status de sub-médicos, sem direito nem a ter seu salário integral, sabendo que as famílias que deixaram distantes podem sofrer sanções policiais ante à menor busca de básicos direitos humanos no país novo e querer que as entidades médicas compactuem bovinamente com isso é premissa típica do Mal.
O maniqueísmo está se construindo. Eu topo. Não tenho pudor nem acho pretensão dizer que sou o Bem, e com isso chamar a todos para um mundo de igualdade. Está no discurso de Joseph Brodsky, "o Mal cria raízes quando um homem começa a pensar que é melhor que outro." E quando isso ocorre, apenas ficamos em silêncio. Ao apanharmos, que seja verbalmente, o silêncio como reação e a pronta receptividade a outra pancada "não se limitam a estimular o sentimento de culpa do inimigo - este, o Inimigo consegue aplacar, mas sim submeter suas faculdades à falta de sentido de todo o empreendimento, do mesmo modo de toda produção em massa."
Mas são ações nossas que nos tornearão. Temos que escolher um caminho. O Mal não admite concessões. Não existe um semi-Mal, ou um "Mal de Centro". A ações, enfim são sempre individualistas no caso da turma do Bem.
Diferente de como foi a ação do presidente Alexandre Blay. Esta foi uma ação individual, por vezes chamada apropriadamente de "foro íntimo".
Volte à sua tribuna, Dr Alexandre. Encare a situação como extrema. Apenas mire nos olhos dos opressores, que estão de lança na mão e leões famintos do lado. Fique firme, se preciso ofertando a outra face. Seja um exemplo a ser seguido.
E daí, quando lhe perguntarem acintosamente de sua responsabilidade naquele ato de negar as licenças (que foi antes de tudo uma ato de resistência), respire fundo mas não fale. Apenas escute-nos ao fundo, dizendo juntos, com força cada vez mais contagiante: "Eu sou Spartacus!"
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Não me convidaram para esta festa pobre
"Gosto
de ser gente porque a História em que me faço com outros e de cuja feiúra tomo
parte, é um tempo de possibilidades, não de determinismos."
Paulo
Freire
O argumento é simples: quando quatro juízes, dentre os da turma, decidem
pela absolvição do réu, ainda que os outros tenham decidido pela condenação, a
decisão deve ser revista. Trata-se da ideia básica que ampara os chamados
embargos infringentes. Estão previstos no Estatuto do STF, revisado em
1980. Houve uma lei aprovada pelo Congresso que regulamenta os recursos em
Cortes Superiores, aprovada em 1990. Como foi aprovada pelo Congresso é
hierarquicamente superior ao estatuto do STF. Esta lei não diz que os tais
embargos podem ser usados. Mas também não diz que não podem. E está armada a
quizomba.
Os votos de Joaquim Barbosa e Luiz Fux foram taxativos tanto ao dizer
que os embargos infringentes eram descabidos, quanto ao demolir os argumentos a
favor, inclusive com a tese simples de que um tribunal não precisa votar de
novo o que já foi devida e exaustivamente votado. Vale a pena dar uma olhada
neles, bem como no de Gilmar Mendes. Carmem Lúcia foi sóbria e Marco Aurélio
esqueceu um pouco o fair play, mas vamos em frente.
Nenhuma surpresa quanto à maioria
dos outros. Os cãezinhos amestrados do petismo fizeram seu papel. Quem se
lembrar da sabatina de Rosa Weber pelo senado - parodiada até pela MTV, quem se
lembrar de quem era Dias Tofoli, e continua sendo; quem se lembrar do currículo
"vergonha alheia" de Lewandowski e quem não se lembrar de Teori
Zavascki vai se lembrar também que desde o acolhimento do Mensalão pelo
Procurador Geral da República e sua condução à apreciação pelo STF já se vão
seis anos. Vai se lembrar que esta chicana possibilitou a aposentadoria de Ayres
Brito e Cezar Peluso, cujos votos condenatórios não deixariam a discussão dos
embargos sequer começar. Nenhuma surpresa. Luís Barroso, porém, talvez o único
dos indicados pelo petismo com grife, deu uma “calourada” – diz-se nas
universidades que por mais que um aluno tenha passado pelo vestibular, no
primeiro ano ele emburrece. Pode ser este o fenômeno que ocorreu no voto do
Ministro, outrora um dos maiores constitucionalistas brasileiros, admirados por
gregos e tucanos. Dias antes da posse, como lembrou Augusto Nunes, Barroso
deixou claro que não via como aceitar os embargos, nem achava delicado se
contrapor tão diametralmente à postura de Ayres Brito, seu antecessor. Aí no
voto... bem, no voto ele “me sórta” que estava com pena das famílias dos
acusados... Coube a Marco Aurélio
quebrar-lhe um ovo na testa, chamando-o de “novato”.
A flagrante diferença de nível entre as argumentações contra e a favor
dos embargos já dá o tom e dá esperança. Se os contrários aos embargos podem
ser acusados de excesso de civismo em detrimento da lei, os que concordam podem
também ser acusados de excesso de cinismo em favor da lei.
Vai ficar nas mãos do decano. Celso
de Mello teve uma das mais belas defesas do estado de direito e da decência em
uma sociedade, nos votos em que condenara os mensaleiros. Concordo que não
precisa ouvir o ronco (que ronco?) das ruas. Espero que não ouça o tilintar da
máquina registradora. Celso Mello só tem que ouvir Celso de Mello.
Vale lembrar que em 1971 este mesmo
Supremo Tribunal Federal considerou constitucional a lei da Censura Prévia,
elaborada pelo governo Médici. Ao fim daquela seção, o ministro Adauto Lucio
Cardoso levantou-se, jogou sua toga no chão e se retirou do plenário. Em 1994
julgou Fernando Collor e o absolveu por falta de provas. Daquela turma do STF
faziam parte Celso de Mello, que absolveu Collor (epa...) e Marco Aurélio, que
se declarou impedido por ser primo do réu.
Não se pode dizer que o Supremo
perdeu o respeito em 71, tampouco em 94. Entende-se o clima beligerante do
atual momento. Mas, ainda que Celso de Mello aceite os embargos infringentes e
mande o julgamento para as calendas, nem assim as coisas não estarão perdidas.
Em primeiro lugar, este julgamento
inverteu a densidade dos argumentos. Não só entre os ministros, mas entre as
pessoas comuns. Já se encontram mais leitores de Ayn Rand, de Mises, de Ortega
e Gassett, de Olavo de Carvalho. Leandro Narloch, Laurentino Gomes, Demétrio
Magnoli, Luis Pondé e até o Lobão são também Best Sellers, enquanto o filme do
Lula foi um mico, o livro da privataria tucana não foi lido nem pelos petistas,
assim como não será a biografia de José Dirceu. Os blogs contestadores são
tocados por uma rapaziada bem letrada, mas ao mesmo tempo sarcástica, que
esmiúça não só as táticas da esquerda como suas incoerências internas.
Mesmo a TV a cores na taba dos
índios, finalmente programada para só dizer sim – vide o mea culpa da Globo e o
editorial de ontem da Folha – são mais
do mesmo.
As novidades neste processo todo,
que pode acabar promovendo os mensaleiros a presidiários ou a mortos-vivos
emanadores de enxofre começam por não se ouvir pelas ruas a palavra “inocente”.
Nem mesmo o petista mais emperdernido, que nos chama de fascista depois de
cinco minutos de discussão vai sustentar tal disparate. Deixem que façam festa.
Festa pobre de espírito, caráter e elegância. Já sabemos qual é o negócio e o
nome do sócio.
Mas somos e seremos ainda parte da
cara do Brasil. E vamos mostrá-la. Num debate sereno, embasado, contestador,
corajoso. Eduquemos nossos filhos, antes que um professor de história
aparelhado o eduque. O trabalho é imenso, mas necessário. A história nem
tampouco as instituições terminam neste julgamento. É isso que a petezada quer
de nós – desânimo.
Mas não: avante meninos da pátria! Porque esta
grande pátria, desimportante, esculhambada, achincalhada e desiludida não será
em nenhum instante traída por nós.
domingo, 28 de julho de 2013
Pelo menos não queimaram uma Bíblia...
Não há porque temer uma discussão sobre religião. Este blog discute política, o que para muitos é algo indiscutível, assim como futebol. Mas nenhum dos três é questão de gosto. Gosto é que não se discute, e há um chavão mais preciso que define a questão ao considerar que cada um tem o seu gosto, mas não o reproduziremos aqui a fim de não chocar tanto.
A visita do Papa Francisco suscitou, como nenhuma outra, manifestações anti-cristãs. Mais que isso, anti-religiosas. Na mesma medida, vimos exemplos de tolerância vindos até de ateus convictos. Pode ser que a tolerância seja um bem mais natural do ser humano, por isso é mais silenciosa. Meio como a respiração, que não faz barulho ao contrário da tosse. Daí que a intolerância, como todo sintoma de doença, pareça mais estridente e forte no começo, mas vai sendo vencida pela saudável e tácita convivência democrática entre discordantes. De maneira que o saldo, ainda que pareça pender para o outro lado, foi positivo. Não a favor necessariamente do catolicismo, mas do respeito pelas convicções alheias.
Há uma anedota envolvendo o ex-presidente João Figueiredo. Consta que ele, já general, recebeu um militar chinês em visita. Assustou-se com o despojamento da farda do colega, sem medalhas, condecorações, estrelas, enfim, sem nada que ostentasse o alto posto hierárquico daquele senhor. Figueiredo lhe perguntou a razão de tanto desprendimento, já que seria motivo de orgulho e até de justiça vestir uma farda digna de um general. A resposta teria sido "a farda de um general chinês é assim, para ele não se esquecer de que antes de mais nada é um soldado." Francisco, ao pedir um trono de madeira, ao recusar as vestes vermelhas e douradas, ao preferir a comida das freiras à do Copacabana Palace, talvez esteja querendo nos mostrar que antes de mais nada é um padre. Num primeiro momento parece óbvia, mas é uma escolha também política. Tanto é que, a despeito da virulência das manifestações anti-clericais, a pessoa de Bergoglio parece ter sido poupada de maiores ofensas (Ratzinger chegou a ser chamado de nazista quando veio), mas tal fato se deve mais à figura pessoal do Papa que propriamente a uma guinada de nossa sociedade em direção a uma maior tolerância.
Talvez por chegar num momento em que alguns barulhentos arrebentam agências bancárias em São Paulo para protestar contra o governador do Rio, a visita papal tenha levado em seu bojo os ventos contemporâneos desta Primavera Brasileira. Porém, a "vergonha do Várti" foi muito mais pela desorganização carioca - que poderia se dar em qualquer cidade do país - do que pela Marcha das Vadias. Uma, por assim dizer, manifestante, reproduzir uma cena d' O Exorcista e se empalar com uma cruz causa menos espécie que o lamaçal de Guaratiba.
O que os imberbes manifestantes vestidos de ninja não compreendem, talvez por imaturos, deseducados, prepotentes ou tudo isso junto, é que o carnaval deprimente que estão produzindo não demoverá os católicos de sua crença - tampouco a fortalecerá. Nem demoverão os políticos de suas práticas, mas neste caso as fortalecerão. Suas excelências já perceberam que se trata de mais espuma que maré. E vão passear com cachorrinhos de helicóptero, colocar multidões num lugar que até ontem era um mangue, votar pelo fim do foro privilegiado para poderem ser julgados em seus currais eleitorais, submeter peregrinos do mundo todo a um assalto a cada dez minutos, enfiar o Papa num corredor de ônibus, fazer o PIB equivaler à arrecadação de impostos e tomar medidas marqueteiras para que menos pessoas morram em corredores de hospitais.
O fato de todas estas mazelas serem recentíssimas e terem ocorrido após o início das manifestações só nos mostra que nossos governantes não são de Marte. Eles apenas são a expressão de um povo raso de idéias, de moral e de costumes.
A visita do Papa Francisco suscitou, como nenhuma outra, manifestações anti-cristãs. Mais que isso, anti-religiosas. Na mesma medida, vimos exemplos de tolerância vindos até de ateus convictos. Pode ser que a tolerância seja um bem mais natural do ser humano, por isso é mais silenciosa. Meio como a respiração, que não faz barulho ao contrário da tosse. Daí que a intolerância, como todo sintoma de doença, pareça mais estridente e forte no começo, mas vai sendo vencida pela saudável e tácita convivência democrática entre discordantes. De maneira que o saldo, ainda que pareça pender para o outro lado, foi positivo. Não a favor necessariamente do catolicismo, mas do respeito pelas convicções alheias.
Há uma anedota envolvendo o ex-presidente João Figueiredo. Consta que ele, já general, recebeu um militar chinês em visita. Assustou-se com o despojamento da farda do colega, sem medalhas, condecorações, estrelas, enfim, sem nada que ostentasse o alto posto hierárquico daquele senhor. Figueiredo lhe perguntou a razão de tanto desprendimento, já que seria motivo de orgulho e até de justiça vestir uma farda digna de um general. A resposta teria sido "a farda de um general chinês é assim, para ele não se esquecer de que antes de mais nada é um soldado." Francisco, ao pedir um trono de madeira, ao recusar as vestes vermelhas e douradas, ao preferir a comida das freiras à do Copacabana Palace, talvez esteja querendo nos mostrar que antes de mais nada é um padre. Num primeiro momento parece óbvia, mas é uma escolha também política. Tanto é que, a despeito da virulência das manifestações anti-clericais, a pessoa de Bergoglio parece ter sido poupada de maiores ofensas (Ratzinger chegou a ser chamado de nazista quando veio), mas tal fato se deve mais à figura pessoal do Papa que propriamente a uma guinada de nossa sociedade em direção a uma maior tolerância.
Talvez por chegar num momento em que alguns barulhentos arrebentam agências bancárias em São Paulo para protestar contra o governador do Rio, a visita papal tenha levado em seu bojo os ventos contemporâneos desta Primavera Brasileira. Porém, a "vergonha do Várti" foi muito mais pela desorganização carioca - que poderia se dar em qualquer cidade do país - do que pela Marcha das Vadias. Uma, por assim dizer, manifestante, reproduzir uma cena d' O Exorcista e se empalar com uma cruz causa menos espécie que o lamaçal de Guaratiba.
O que os imberbes manifestantes vestidos de ninja não compreendem, talvez por imaturos, deseducados, prepotentes ou tudo isso junto, é que o carnaval deprimente que estão produzindo não demoverá os católicos de sua crença - tampouco a fortalecerá. Nem demoverão os políticos de suas práticas, mas neste caso as fortalecerão. Suas excelências já perceberam que se trata de mais espuma que maré. E vão passear com cachorrinhos de helicóptero, colocar multidões num lugar que até ontem era um mangue, votar pelo fim do foro privilegiado para poderem ser julgados em seus currais eleitorais, submeter peregrinos do mundo todo a um assalto a cada dez minutos, enfiar o Papa num corredor de ônibus, fazer o PIB equivaler à arrecadação de impostos e tomar medidas marqueteiras para que menos pessoas morram em corredores de hospitais.
O fato de todas estas mazelas serem recentíssimas e terem ocorrido após o início das manifestações só nos mostra que nossos governantes não são de Marte. Eles apenas são a expressão de um povo raso de idéias, de moral e de costumes.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
"Mensaleiros na cadeia!"
(Escrito por inspiração das idéias do Dr. Leonardo F. Zimmerman)
Jean Paul Sartre definiu o Maio de 68 na França desta forma numa entrevista dois anos depois: "Ainda estou pensando no que aconteceu, não compreendi muito bem. Não pude entender o que aqueles jovens queriam, então acompanhei como pude. Fui conversar com eles na Sorbonne, mas isso não queria dizer nada."
Sartre ia na frente em algumas manifestações e enfrentou a polícia. O general Charles de Gaulle, presidente francês à época, deu ordens para que não prendessem o filósofo. As manifestações uniam estudantes em greve e trabalhadores também em greve. Em uma das maiores passeatas, Daniel Cohen-Bendit, líder estudantil, organizou a distribuição dos manifestantes, e deu o clássico grito "A canalha stalinista vai para o fim do cortejo!" Foi o estopim da briga com o Partido Comunista Francês, que se retirou dos protestos, fazendo com que aquilo naturalmente evoluísse para um movimento apartidário. Ao contrário de Sartre, o presidente de Gaulle entendeu a mensagem que chegava daquele furdunço. Poderia ter convocado um plebiscito para reformar a política. Preferiu convocar eleições mesmo. Se tivessem que tirá-lo do governo, que fosse pelo voto - estadistas geralmente fazem assim. Depois chamou a Confédération Generále du Travail, a CUT deles, e concedeu aumento aos trabalhadores, terminando com a greve. Um mês depois vencia as eleições, indicando para primeiro ministro o conservador George Pompidou.
Viajemos no tempo, dez anos antes, para a Suécia (tenham paciência comigo...). Final da Copa do Mundo entre o time da casa e o Brasil. A segunda final de nossa seleção, oito anos depois do Maracanazo, que enterrara nossa auto estima. Antes dos cinco minutos do primeiro tempo, a Suécia abre o placar. Um a zero pros caras. O time brasileiro parou atônito por alguns segundos enquanto o estádio em Estocolmo explodia em vibração. De repente todos pareceram acordar e foram correndo buscar a bola dentro do gol de Gilmar, ainda caído. No meio da correria, Didi fez um gesto brando pedindo a bola. Pegou-a e todos foram correndo para o meio do campo. Menos ele. O "Príncipe Etíope", como o chamava Nelson Rodrigues foi caminhando calmamente de cabeça erguida, conduzindo a bola com a mão espalmada, como se a levasse numa bandeja. Naquela curta caminhada até o círculo central, Didi acalmou a todos e o jogo recomeçou com os ânimos serenados. Vavá empatou três minutos depois e o resto a gente já sabe.
Nas manifestações no Brasil de Junho último, um cartaz chamou atenção: era envergado por respeitáveis senhores de meia para terceira idade e dizia: "Os jovens de 1968 apoiam os jovens de 2013". Sartre morreu sem ter entendido o maio de 68. Esses aí do cartaz irão no mesmo caminho. E não entenderão o junho de 2013. Mas o cartaz fez sentido. Ambos foram movimentos apartidários, baseados na explosão de hormônios e na necessidade de se apanhar da polícia para justificar a própria existência. O espírito sessentaeoitista impregnou este movimento brasileiro de agora e o pôs a perder. O negócio começou a degringolar quando outro cartaz disse "Não é só pelos 20 centavos", e passou a ser por tudo. E para piorar, no governo central temos uma figura decorativa, que mal articula uma frase, à frente de um ministério mastodôntico e fisiológico. Há quem possa sentir falta de um de Gaulle. Mas falta mesmo faz um Didi.
A atitude de sair correndo a esmo, chutando a bola pra frente para recomeçar logo o jogo, é o melhor caminho para a derrota. Já há a sensação de que tudo não passou de uma marola, um espasmo que gerou reações igualmente espasmódicas do poder central. Pode ser que fosse uma utopia vencer os suecos na casa deles. Mas só seria possível com organização, foco e uma dose saudável de serenidade em meio ao natural arrojo do esporte. Foi isso que Didi quis passar aos companheiros. É perigoso que surja um dono da bola agora, mas a atitude cabe.
A birra com os políticos e com a política em geral não produziu um slogan. Movimento popular para dar certo no Brasil, precisa de frase pronta, que nada mais é que a expressão do que motiva as pessoas a estarem nas ruas. Foi assim com os últimos levantes de peso em nossa história recente. "Anistia ampla, geral e irrestrita", "Diretas já" e "Fora Collor". Falta alguém explicar porque em nenhuma cartolina apareceu a frase "Mensaleiros na cadeia".
O Supremo Tribunal Federal já decidiu pela culpa dos mensaleiros. Estão todos soltos, alguns "trabalhando" no Congresso. A melhor das Reformas Políticas começará quando todos forem presos. Pode ser utopia sim. E utopia é antes de tudo crença. Talvez comecemos a entender esses protestos quando considerarmos que foram movidos justamente pela descrença.
É legal sair às ruas, aquietar a consciência com a idéia de que se está fazendo história. Mas até para isso é necessário método. Não precisa ser nada complexo não. Em lugar nenhum do mundo houve passeata pelo voto distrital misto. Esse movimento das passeatas de junho minguou porque não fez o simples. Exultou-se o apoteótico, o barulho, a irreverência - noves fora os baderneiros - parou-se as avenidas. Mas acabou na quarta-feira de cinzas. Bradou-se contra a política tradicional e contra tudo que está aí, mas os mensaleiros foram deixados em paz.
Bastava um slogan, repetido como um mantra. José Dirceu e sua corja na cadeia seria sim didático, revolucionário, um feito para lavar a alma de uma geração. Mas por hora vamos de reforma na saúde, que a reforma política morreu com o natimorto plebiscito.
Falando em reforma da saúde, ocorreu-me outra frase para cartolina: "Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são." Essa apareceu em "Macunaíma", de Mário de Andrade. Foi publicado em 1928, 40 anos antes do Maio francês. Lembrei disso agora porque minha cachorrinha está latindo mais que carro de som de sindicato. Ela sempre faz isso quando tem muita formiga no quintal.
Sartre ia na frente em algumas manifestações e enfrentou a polícia. O general Charles de Gaulle, presidente francês à época, deu ordens para que não prendessem o filósofo. As manifestações uniam estudantes em greve e trabalhadores também em greve. Em uma das maiores passeatas, Daniel Cohen-Bendit, líder estudantil, organizou a distribuição dos manifestantes, e deu o clássico grito "A canalha stalinista vai para o fim do cortejo!" Foi o estopim da briga com o Partido Comunista Francês, que se retirou dos protestos, fazendo com que aquilo naturalmente evoluísse para um movimento apartidário. Ao contrário de Sartre, o presidente de Gaulle entendeu a mensagem que chegava daquele furdunço. Poderia ter convocado um plebiscito para reformar a política. Preferiu convocar eleições mesmo. Se tivessem que tirá-lo do governo, que fosse pelo voto - estadistas geralmente fazem assim. Depois chamou a Confédération Generále du Travail, a CUT deles, e concedeu aumento aos trabalhadores, terminando com a greve. Um mês depois vencia as eleições, indicando para primeiro ministro o conservador George Pompidou.
Viajemos no tempo, dez anos antes, para a Suécia (tenham paciência comigo...). Final da Copa do Mundo entre o time da casa e o Brasil. A segunda final de nossa seleção, oito anos depois do Maracanazo, que enterrara nossa auto estima. Antes dos cinco minutos do primeiro tempo, a Suécia abre o placar. Um a zero pros caras. O time brasileiro parou atônito por alguns segundos enquanto o estádio em Estocolmo explodia em vibração. De repente todos pareceram acordar e foram correndo buscar a bola dentro do gol de Gilmar, ainda caído. No meio da correria, Didi fez um gesto brando pedindo a bola. Pegou-a e todos foram correndo para o meio do campo. Menos ele. O "Príncipe Etíope", como o chamava Nelson Rodrigues foi caminhando calmamente de cabeça erguida, conduzindo a bola com a mão espalmada, como se a levasse numa bandeja. Naquela curta caminhada até o círculo central, Didi acalmou a todos e o jogo recomeçou com os ânimos serenados. Vavá empatou três minutos depois e o resto a gente já sabe.
Nas manifestações no Brasil de Junho último, um cartaz chamou atenção: era envergado por respeitáveis senhores de meia para terceira idade e dizia: "Os jovens de 1968 apoiam os jovens de 2013". Sartre morreu sem ter entendido o maio de 68. Esses aí do cartaz irão no mesmo caminho. E não entenderão o junho de 2013. Mas o cartaz fez sentido. Ambos foram movimentos apartidários, baseados na explosão de hormônios e na necessidade de se apanhar da polícia para justificar a própria existência. O espírito sessentaeoitista impregnou este movimento brasileiro de agora e o pôs a perder. O negócio começou a degringolar quando outro cartaz disse "Não é só pelos 20 centavos", e passou a ser por tudo. E para piorar, no governo central temos uma figura decorativa, que mal articula uma frase, à frente de um ministério mastodôntico e fisiológico. Há quem possa sentir falta de um de Gaulle. Mas falta mesmo faz um Didi.
A atitude de sair correndo a esmo, chutando a bola pra frente para recomeçar logo o jogo, é o melhor caminho para a derrota. Já há a sensação de que tudo não passou de uma marola, um espasmo que gerou reações igualmente espasmódicas do poder central. Pode ser que fosse uma utopia vencer os suecos na casa deles. Mas só seria possível com organização, foco e uma dose saudável de serenidade em meio ao natural arrojo do esporte. Foi isso que Didi quis passar aos companheiros. É perigoso que surja um dono da bola agora, mas a atitude cabe.
A birra com os políticos e com a política em geral não produziu um slogan. Movimento popular para dar certo no Brasil, precisa de frase pronta, que nada mais é que a expressão do que motiva as pessoas a estarem nas ruas. Foi assim com os últimos levantes de peso em nossa história recente. "Anistia ampla, geral e irrestrita", "Diretas já" e "Fora Collor". Falta alguém explicar porque em nenhuma cartolina apareceu a frase "Mensaleiros na cadeia".
O Supremo Tribunal Federal já decidiu pela culpa dos mensaleiros. Estão todos soltos, alguns "trabalhando" no Congresso. A melhor das Reformas Políticas começará quando todos forem presos. Pode ser utopia sim. E utopia é antes de tudo crença. Talvez comecemos a entender esses protestos quando considerarmos que foram movidos justamente pela descrença.
É legal sair às ruas, aquietar a consciência com a idéia de que se está fazendo história. Mas até para isso é necessário método. Não precisa ser nada complexo não. Em lugar nenhum do mundo houve passeata pelo voto distrital misto. Esse movimento das passeatas de junho minguou porque não fez o simples. Exultou-se o apoteótico, o barulho, a irreverência - noves fora os baderneiros - parou-se as avenidas. Mas acabou na quarta-feira de cinzas. Bradou-se contra a política tradicional e contra tudo que está aí, mas os mensaleiros foram deixados em paz.
Bastava um slogan, repetido como um mantra. José Dirceu e sua corja na cadeia seria sim didático, revolucionário, um feito para lavar a alma de uma geração. Mas por hora vamos de reforma na saúde, que a reforma política morreu com o natimorto plebiscito.
Falando em reforma da saúde, ocorreu-me outra frase para cartolina: "Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são." Essa apareceu em "Macunaíma", de Mário de Andrade. Foi publicado em 1928, 40 anos antes do Maio francês. Lembrei disso agora porque minha cachorrinha está latindo mais que carro de som de sindicato. Ela sempre faz isso quando tem muita formiga no quintal.
domingo, 7 de julho de 2013
Manual contra açougueiros
Não, não se trata de um manual para nos defender de vendedores de carne mal-intencionados. Trata-se de precaver a nossa população a respeito de algo que sofreremos dentro de muito pouco tempo: médicos, por assim dizer, formados em Cuba desembarcarão no Brasil aos borbotões, a fim de resolver os problemas de nossa saúde. As entidades médicas reagiram, foram contra a proposta, alegando que a proporção de médicos para cada grupo de brasileiros previamente definido chega a ultrapassar os números sugeridos pelos órgãos internacionais. Disseram que o problema da saúde na verdade está na estrutura, nas condições de trabalho e não na falta de médicos. Alguns setores da imprensa e da população reagiram nos xingando, sem razão, do que sempre xingaram com razão: "financistas", "elitistas", "reservadores de mercado", "cadê o sacerdócio?" perguntavam alguns.
Escapa ao senso comum que, assim como todo país que se considere civilizado, o Brasil não veta a entrada de médicos. Porém, para que exerçam a profissão, é necessário que se submetam a uma revalidação do diploma obtido em outro país. Não se trata de preconceito com a medicina cubana. Os muitos ganhadores de prêmio Nobel que de lá saíram, os vários centros de tratamento que são referência mundial, os papers que se publicam direto de Havana em inglês - essa língua do imperialismo - e a formação de ponta das mais de vinte escolas de medicina de Cuba, onde os alunos tem franco e ilimitado acesso às bases de dados médicos não conferem, absolutamente, o direito de se esquivar de um exame de revalidação.
A jogada de marketing foi interessante - imagino que os homens de marketing devam se remoer quando se associa seu ofício à arte de enganar bobos - mas se repete. Augusto Nunes bem lembrou a fixação pelo número de seis mil. Dilma já prometera seis mil creches na campanha eleitoral. Em visita ao Nordeste em maio, prometeu seis mil carros pipa. Agora vem com esses seis mil médicos.
Dá uma certa preguiça em discorrer sobre as reais intenções acerca da vinda destes colegas. Dizem que podem ser espiões, outros falam que se tratam de treinadores de guerrilha, tem a hipótese que seriam doutrinadores da fé socialista. Realmente seria melhor que tudo isso fosse verdade, pelo menos eles não fariam tão mal à saúde do povo.
Cuba se nega a passar por qualquer escrutínio, auditoria, ou o que quer que seja. Regimes fechados são assim mesmo. Apóiam-se em frases de efeito, precisam delas. A medicina de Cuba é defendida por dizeres que cabem numa cartolina de protesto, do tipo "80.000 crianças morrem todos os dias por doenças evitáveis, nenhuma delas é cubana." Tem criança brasileira nessa conta. Tem também (uns três ou quatro, mas tem) alguns suequinhos, japonesinhos, norte-americaninhos. Mas, vejam só, NE-NHU-MA criança cubana. Um médico formado nesta cultura totalitária, que escarnece do mundo e esconde as próprias estatísticas, é antes de tudo um propagandista, formado para cuidar da manutenção do regime, não de gente.
Pode ser que Dilma, no fundo, pretenda importar na verdade uns 120 médicos cubanos. Pois se formos levar em consideração a porcentagem de médicos que de lá vieram e foram aprovados nos exames de revalidação - 2% - é o que sobra dos seis mil. Porque eles terão que fazer a prova, que nem a turma que vem do Canadá, da Índia, da Bolívia, de Marte, do Vietnã do Sul...
Cuba não é uma democracia especial, é uma ditadura mesmo, sanguinária, que retira do seu cidadão os direitos de ir e vir, de livre se expressar, de chupar um chicabon e de detestar hollywood. O embargo norte-americano e a base de Guantánamo não justificam que os médicos lá formados não possam passar pelo Revalida. Mas passarão.
Tanto é que o egrégio Centro Acadêmico Adolfo Lutz (CAAL), da Faculdade de Medicina da Unicamp propôs uma reciclagem para que os coleguinhas cubanos possam passar nas provas. Eu já fiz parte dessa instituição e disse naquela época algumas coisas que hoje julgo terem sido bobagens. Mas nenhuma delas foi sob as bênçãos de um ministério. Este Centro Acadêmico já resistiu bravamente a uma ditadura no fim dos anos 60 e agora acena como um cordeirinho ideológico para outra ditadura. Mas deixemos esses meninos. Não são levados a sério nem na Faculdade. E terão que dizer às suas crianças: "Filho, o papai lutou a favor do governo"...
Até porque não deixa de ser boa a ideia do curso de reciclagem. Eu proporia a publicação de um manual para que a população leiga consiga, assim como nós, reconhecer já da anamnese um mau médico. Aceito sugestões para a confecção do manual, que não servirá para desmascarar um regime que aprendemos a admirar no colégio. Esse capítulo é mais complicado. O manual para açougueiros servirá apenas para defender nossa incauta população destes profissionais que exercerão esta nobre profissão sem que tivessem que prestar contas a ninguém.
Ah, diriam muitos, mas e os açougueiros brasileiros? Verdade. No governo do PT as faculdades de medicina dobraram no país, formando médicos com qualidade por vezes sub-cubana. Mas essa questão logo será resolvida. Eu me lembro do atual ministro da Saúde bradar em uma assembleia do CAAL - quando o CAAL ainda fazia assembleias - que tal estado de coisas era uma vergonha, que não passavam de fábricas de diplomas, que eram fruto da lógica capitalista, etc, etc, etc...
Escapa ao senso comum que, assim como todo país que se considere civilizado, o Brasil não veta a entrada de médicos. Porém, para que exerçam a profissão, é necessário que se submetam a uma revalidação do diploma obtido em outro país. Não se trata de preconceito com a medicina cubana. Os muitos ganhadores de prêmio Nobel que de lá saíram, os vários centros de tratamento que são referência mundial, os papers que se publicam direto de Havana em inglês - essa língua do imperialismo - e a formação de ponta das mais de vinte escolas de medicina de Cuba, onde os alunos tem franco e ilimitado acesso às bases de dados médicos não conferem, absolutamente, o direito de se esquivar de um exame de revalidação.
A jogada de marketing foi interessante - imagino que os homens de marketing devam se remoer quando se associa seu ofício à arte de enganar bobos - mas se repete. Augusto Nunes bem lembrou a fixação pelo número de seis mil. Dilma já prometera seis mil creches na campanha eleitoral. Em visita ao Nordeste em maio, prometeu seis mil carros pipa. Agora vem com esses seis mil médicos.
Dá uma certa preguiça em discorrer sobre as reais intenções acerca da vinda destes colegas. Dizem que podem ser espiões, outros falam que se tratam de treinadores de guerrilha, tem a hipótese que seriam doutrinadores da fé socialista. Realmente seria melhor que tudo isso fosse verdade, pelo menos eles não fariam tão mal à saúde do povo.
Cuba se nega a passar por qualquer escrutínio, auditoria, ou o que quer que seja. Regimes fechados são assim mesmo. Apóiam-se em frases de efeito, precisam delas. A medicina de Cuba é defendida por dizeres que cabem numa cartolina de protesto, do tipo "80.000 crianças morrem todos os dias por doenças evitáveis, nenhuma delas é cubana." Tem criança brasileira nessa conta. Tem também (uns três ou quatro, mas tem) alguns suequinhos, japonesinhos, norte-americaninhos. Mas, vejam só, NE-NHU-MA criança cubana. Um médico formado nesta cultura totalitária, que escarnece do mundo e esconde as próprias estatísticas, é antes de tudo um propagandista, formado para cuidar da manutenção do regime, não de gente.
Pode ser que Dilma, no fundo, pretenda importar na verdade uns 120 médicos cubanos. Pois se formos levar em consideração a porcentagem de médicos que de lá vieram e foram aprovados nos exames de revalidação - 2% - é o que sobra dos seis mil. Porque eles terão que fazer a prova, que nem a turma que vem do Canadá, da Índia, da Bolívia, de Marte, do Vietnã do Sul...
Cuba não é uma democracia especial, é uma ditadura mesmo, sanguinária, que retira do seu cidadão os direitos de ir e vir, de livre se expressar, de chupar um chicabon e de detestar hollywood. O embargo norte-americano e a base de Guantánamo não justificam que os médicos lá formados não possam passar pelo Revalida. Mas passarão.
Tanto é que o egrégio Centro Acadêmico Adolfo Lutz (CAAL), da Faculdade de Medicina da Unicamp propôs uma reciclagem para que os coleguinhas cubanos possam passar nas provas. Eu já fiz parte dessa instituição e disse naquela época algumas coisas que hoje julgo terem sido bobagens. Mas nenhuma delas foi sob as bênçãos de um ministério. Este Centro Acadêmico já resistiu bravamente a uma ditadura no fim dos anos 60 e agora acena como um cordeirinho ideológico para outra ditadura. Mas deixemos esses meninos. Não são levados a sério nem na Faculdade. E terão que dizer às suas crianças: "Filho, o papai lutou a favor do governo"...
Até porque não deixa de ser boa a ideia do curso de reciclagem. Eu proporia a publicação de um manual para que a população leiga consiga, assim como nós, reconhecer já da anamnese um mau médico. Aceito sugestões para a confecção do manual, que não servirá para desmascarar um regime que aprendemos a admirar no colégio. Esse capítulo é mais complicado. O manual para açougueiros servirá apenas para defender nossa incauta população destes profissionais que exercerão esta nobre profissão sem que tivessem que prestar contas a ninguém.
Ah, diriam muitos, mas e os açougueiros brasileiros? Verdade. No governo do PT as faculdades de medicina dobraram no país, formando médicos com qualidade por vezes sub-cubana. Mas essa questão logo será resolvida. Eu me lembro do atual ministro da Saúde bradar em uma assembleia do CAAL - quando o CAAL ainda fazia assembleias - que tal estado de coisas era uma vergonha, que não passavam de fábricas de diplomas, que eram fruto da lógica capitalista, etc, etc, etc...
segunda-feira, 17 de junho de 2013
A vaia cordial
"Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade: daremos ao mundo o 'homem cordial'."
Sérgio Buarque de Hollanda
Em nota a esta frase, extraída de "Raízes do Brasil", o autor presta o devido reconhecimento ao criador da expressão "homem cordial" como tendo sido o escritor Ribeiro Couto, meio século antes. E já adverte a respeito de interpretações errôneas da expressão, que não sugere um "homem polido" ou educado, ou cheio de mesuras. "Cordial" vem de "coração". Sim, somos um povo hospitaleiro, generoso, que não consegue dizer diretamente um "não", que se despede dizendo "depois te ligo!". Mas, adverte Sérgio Buarque, "seria engano pressupor que estas possam significar boas maneiras, civilidade. São antes de tudo expressões de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante." Ressalta que um povo realmente polido, como o japonês, usa a polidez como defesa ante a uma sociedade com preceitos rígidos e naturalmente opressores. A lhaneza no trato, típica do japonês, equivaleria a "um disfarce, que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções." Assim, o indivíduo conseguiria manter sua "supremacia ante o social".
Ele continua, afirmando que "nenhum povo está tão distante desta noção ritualista da vida que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez." Para o "homem cordial", viver em sociedade significa fugir da apavorante responsabilidade de ter que se haver consigo mesmo, com suas obrigações, limitações, frustrações e outros "ões". Seria uma forma de nos lançarmos aos outros, para enfim nos reduzirmos, enquanto indivíduos, à nossa parcela "social, periférica, que - no brasileiro - tende a ser a que mais importa."
Eis um traço fundamental de nosso povo. Um povo que desconhece qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo - até quando o que menos cabe seja a emoção. São abundantes os relatos de mercadores antigos que percebiam nos negociantes brasileiros a necessidade de fazer amigos e não clientes fiéis. O grau de confiança nas transações adviria do grau de amizade entre as partes ("confie em mim, sou seu amigo") e não de um pacto moral.
Fatalmente, estas características iriam redundar em aspectos que tanto nos dizem respeito. Temos horror ao distanciamento individual. Horror à qualquer liturgia, a começar da religiosa. Esta é a terra dos cultos sem obrigações, sem reflexões intimistas, das missas aeróbicas, das manifestações religiosas que dispensam o fiel de "todo esforço, toda diligência, toda tirania sobre si mesmo." O afrouxamento, a humanização, a democratização dos ritos religiosos, mais exuberantes na forma que no conteúdo, "corrompeu pela base nosso sentimento religioso." Nem vamos tão longe assim: tente explicar a um italiano o que é ser um católico não-praticante.
Um povo que só aceita de bom grado "as disciplinas ditadas pela simpatia e pela concórdia" não toma fundo conhecimento de nenhuma instituição mais formalizada de sociedade, a começar pela família. Repare nas escalações das outras seleções: os jogadores ostentam seus nomes de família. Raramente isso não acontece. Já no nosso time, isso não ocorre. Sei lá, tirando o Hernanes, é tudo prenome ou apelido mesmo. Já imaginaram um "Hulk" em outra seleção? Nossos maiores ídolos no futebol respondem por seus apelidos - Pelé, Garrincha, Zico - ou por diminutivos, como os Ronaldinhos. Sérgio Buarque já apontava para estes tópicos em seu texto. E a subversão da família leva fatalmente à subversão do Estado, por vezes confundido com a própria extensão do lar. O autor é claro sobre isso: "O Estado não é uma ampliação do círculo familiar, e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo." E sai-se com Sófocles para mostrar esta incompatibilidade:
"E todo aquele que, acima da pátria, coloca seu amigo, eu o terei como nulo."
Alguns milhares de pessoas xingaram Dilma Roussef na abertura da Copa das Confederações. Trata-se de uma platéia ainda pouco acostumada a lugares marcados em estádio. Estavam sim, acostumados a guardar lugares para os amigos. Estão acostumados a comprar de DVD´s piratas, a cartas de motorista, e principalmente a dizer que fazem tudo isso por culpa da crônica falta de fiscalização de governos que eles mesmo elegeram.
Nós não sabemos o que é "fair play", monsieur Blatter. Nós cavamos pênalti e achamos que ganhar roubado é mais gostoso. Xingamos a presidente da mesma forma que mostramos a língua para nossos pais. Estávamos protegidos pela turba, pela massa, pela sociedade, pela pouca noção de nós mesmos enquanto indivíduos. Não vaiamos a alta da inflação, a corrupção, o caos na saúde, a educação vergonhosa. Vaiamos a liturgia, o ritual, o respeito às instituições - porque a gente acha isso muito, muito divertido e libertador.
Xingamos a presidente porque somos cordiais.
Xingamos a presidente porque somos cordiais.
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