segunda-feira, 28 de abril de 2014

Lula e o Princípio de Pareto

"Há três tipos de mentiras: as mentiras, as mentiras deslavadas e as estatísticas"
Benjamin Disraeli
 
 
  Há um conceito em economia chamado "Princípio de Pareto", o qual postula que para muitos fenômenos 80% das consequências advém de 20% das causas. Trata-se de uma técnica estatística que auxilia na tomada de decisão. Grosso modo, por exemplo, se um comércio não pode ter todos os itens líderes de mercado em seu nicho, ele dispõe de 20% dos mais rentáveis que darão 80% do lucro. Este princípio tem vários desdobramentos, mas serve para nos mostrar o flagrante desequilíbrio entre causas e resultados. É uma eficaz ferramenta para definir prioridades na correção de defeitos. Seus desdobramentos naturais foram a chamada "Curva ABC" e o "Diagrama de Pareto". Enfim, a moral da história é o gestor saber que a maioria das perdas é devida à minoria das causas.
  Lula hoje deu uma entrevista, para variar em algum cafundó chique do mundo, para dizer de novo que o Mensalão não existiu. Disse que não vai discutir a decisão da Suprema Corte, que a história vai provar que tralalá, que o tempo se encarregará de trelelê, aquela conversinha de sempre. Chamou atenção o arremate: "O tempo vai se encarregar de mostrar que você teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica."
  É o tipo da frase que tem que ser lida mil vezes. Se o Mensalão não existiu, o correto seria que 100% da decisão do STF tenha sido política. Mas... se 20% da decisão foi de base jurídica, como reconhece o próprio Lula, conclui-se que base jurídica havia, donde o Mensalão existiu... De duas, uma: ou nosso douto ex-presidente aplicou o princípio de Pareto para reconhecer que uma decisão jurídica causou um estrago imenso na política do PT, ou se tratou de mais uma das muitas estatísticas eivadas da mais típica velhacaria deste que de tudo soube e tudo viu desde o começo.
  A boa notícia é que Lula já arregou para 20. Começa a achar que um quinto das barbaridades que a imprensa golpista publicava era verdade. Ou talvez reconheça que as nomeações petistas ao STF foram políticas e não jurídicas. Dos 11 ministros atuais, oito foram nomeados pelo petismo e apenas três por outros presidentes. Dá praticamente os 80/20 do já descrito Princípio. Temos como certa que a atuação de Lewandowski e Toffoli  foram pouco jurídicas para dizer o mínimo. Justiça seja feita a Joaquim Barbosa, Carmen Lúcia e Luís Fux, também nomeados pelo PT.
  Sinceramente, o único voto nos moldes colocados por Lula foi o de Celso de Melo (indicado por Sarney) ao aceitar os embargos infringentes.
   Finalmente, analisando com cuidado as calculadamente distantes declarações de Lula sobre o Mensalão, temos que elas seguiram bem a sequência de Disraeli: primeiro uma mentira. Depois uma mentira deslavada. E agora uma estatística.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Um bom dia para recomeçar

"Vossas Excelências tentaram passar o Primeiro de Abril com uma antecedência de 24 horas. (...) Mercê de Deus, está salva a democracia neste país!"
Doutel de Andrade
 
 
  Já passava da meia-noite do dia 31 de março de 1964 quando o deputado Doutel de Andrade, do PTB de Santa Catarina, fez um inflamado pronunciamento na tribuna da Câmara dos Deputados. Getulista e depois naturalmente janguista, ele tripudiava sobre a ameaça do golpe militar, que a rigor se deu no dia seguinte mesmo. Assim como Doutel, muitos concebiam um governo sanguinário como o de Getúlio Vargas - que matou, torturou, censurou e ceifou as liberdades mais que qualquer outro governo brasileiro, mas não admitiam outra ditadura.
  Até hoje se tem o período Vargas como redentor em nossa história, algo típico de um povo que não conhece a própria história. E tem-se a Ditadura Militar como nosso período mais negro. Ditaduras sempre são ruins, péssimas. Desnorteiam uma ou mais gerações. Minam as esperanças, bestificam um povo, mesmerizam nossas emoções. Hoje, exatos cinquenta anos depois do golpe de 64, é curioso perceber que não temos registrada a versão e razões dos vencedores - fato único numa historiografia de qualquer tempo, de qualquer nação. A história deste período, especialmente, foi e é interpretada pela dialética marxista dos perdedores. Daí o ranço revanchista que acompanha qualquer análise, revestido por isso de uma monocromática interpretação que não admite contestação sob pena de se considerar o contestador um adepto da coerção fardada.
  Por alguma razão, nas barbas da ditadura cresceram e se forjaram pela esquerda os departamentos de Ciências Humanas das grandes universidades, os quais ainda parecem viver naquela época. Cuidam de formar revolucionários com a faca ideológica nos dentes, e não de formar pensadores. Tais bases também reverteram na formação de gerações de estudantes do ensino fundamental e médio e estabeleceram convicções que fazem mal ao debate político no país.
  Sabemos quem foi Marx, Gramsci, Foucault. Não temos idéia de quem foram Mises, Hayek ou Ortega e Gasset. Stalin, Che Guevara, Mao Tse Tung e outros desta laia foram genocidas. Mas não é o que nos ensinam. Chegamos até o vestibular respondendo em provas de história aquilo que era a "verdade" para um tipo de corrente ideológica, que forneceu o caldo onde cresceu a convicção que ser de esquerda é ser legal e o resto é ditadura. Achamos que guerrilheiros como Dilma Roussef, José Dirceu e Genoíno estavam lutando pela democracia. Queriam na verdade outro totalitarismo, experimentado por frações da humanidade da forma mais cruel possível.
  Das muitas heranças que a Ditadura Militar nos legou, tenho que esta é a mais prejudicial - fora as vidas que se perderam. Esta herança formou uma geração de cidadãos pensos à esquerda, alçada à categoria de pensamento único. Determinou uma lavagem cerebral sem precedentes, que está na raiz desde a legislação que considera todo criminoso um coitadinho até as invasões de reitoria por filhinhos de papai que julgam estarem ali fazendo sua revolução.
  Os perdedores estão, enfim, no poder federal hoje. Deixarão como legado o mensalão, as pedras fundamentais inauguradas por Lula, o assistencialismo eleitoreiro levado às últimas potências, a Petrobrás em estado falimentar. Há os que seguem a corriola mesmo assim, alheios à realidade. Fecham os olhos para o ridículo da situação e se prestam cada vez mais a atos igualmente ridículos para justificar sua missão revolucionária.
 

  Este Blog sofreu um ataque da chamada MAV - Militância em Ambientes Virtuais. É um, para usar a nomenclatura deles, "coletivo" onde pessoas pagas com dinheiro público derrubam sites e blogs que não rezam por sua cartilha. É típico desta gente recrutar idiotas com cérebro lavado para intimidar opositores. Na Venezuela temos os Motoqueiros do Maduro, que matam mesmo. Tivemos os "tonton macoutes" no Haiti, altamente sanguinários. Aqui no Brasil, por enquanto, vamos de MAV mesmo.
  Por alguns dias eu não conseguia manejar o "Nova Trincheira", pois travava. Procurei gente que entende e me disseram que havia sido hackeado. Algumas mensagens ameaçadoras me fizeram parar, mais por preguiça que por medo. Neste tempo fora do ar, fiquei pensando que democracia é esta. As milícias da MAV são controladas por Franklin Martins e Gilberto Carvalho. O primeiro participou do sequestro ao embaixador americano, contado em "O que é isso, companheiro?". O segundo foi seminarista, ligado à Pastoral Operária. Gente idealista na juventude. Que cultivava o ideal de fazer valer sua vontade mesmo à custa de intimidação alheia.
  Meio século depois e a farsa se repete como farsa no Brasil. Já estamos vivendo a censura, a época das grandes obras superfaturadas com dinheiro público, a intimidação de contrários pela força.
  Este blog, que eu acreditava ser conhecido e tolerado apenas por amigos, ressurge hoje. Logo no dia em que lembramos uma parte de nossa história que preferíamos poder esquecer. Mas que nos é imposta diuturnamente na forma das mesmas práticas sub-reptícias daquele período. Não há tortura, mas há intolerância institucional. Não há "ame ou deixe-o" mas há "nunca antes neste país". Não há políticos cassados, mas há políticos comprados. Não há censura - direta - à imprensa, mas há coerção, como a que sofri.
  Enfim, os tempos são menos bicudos. Por enquanto, mercê de Deus e graças à vigilância de um contingente cada vez maior de vozes discordantes, a democracia está salva neste país. Voltemos à Trincheira para assumir nosso posto. Ao contrário de 50 anos atrás, a democracia assim nos permite.
  É um bom dia, sem dúvida, para recomeçar.


sábado, 16 de novembro de 2013

Maneiras rasgadas e francas

Vendo a reação dos mensaleiros José Dirceu e José Genoíno ao se entregarem à polícia, ocorreu-me um trecho de um conto de Machado de Assis chamado "O Lapso". Ele cita uma teoria de Charles Lamb, um ensaísta inglês, que dizia haver "duas grandes raças humanas - a dos homens que emprestam e a dos que pedem emprestado. A primeira contrasta pela tristeza do gesto com as maneiras rasgadas e francas da segunda."
Estes senhores tomaram emprestado não só nosso dinheiro. Tomaram também, a fundo perdido, muito do nosso respeito pela política. O principal argumento dos petistas empedernidos para se defender do mensalão é que "todo mundo rouba". Devem achar que atirar lama os defende de alguma coisa. Não vão descansar enquanto o suposto "mensalão Tucano" não for completamente julgado. Chamei de suposto para manter a coerência, visto que o mensalão Petista foi chamado de suposto até ser confirmado pelo STF. Já houve, aliás, uma condenação, neste que se configura como um rascunho muito bem urdido do que viria a ser o mensalão Petista, tanto na operação quanto na atuação da justiça: Nélio Brant, ex-diretor do Banco Rural, foi condenado a nove anos de cana, mas recorre em liberdade. Como a denúncia se deu antes do esquema petista, este processo envolvendo a campanha tucana se mostra com um desenrolar mais lento ainda. Bonito de se ver é a petezada reclamando da lentidão. Citemos Lewandovski: "Estamos com pressa de quê?"
Cinismos a parte, o julgamento da ação penal 470 caminha para seu cabo deixando um rastro de justiça. Levou um tempo imenso. Deu-se ampla voz ao contraditório. Respeitaram os ditames regimentais e até os nem tão regimentais assim - caso dos embargos infringentes, que foram aceitos para os crimes de formação de quadrilha, mas não para os de corrupção. Deixou-se claro, claríssimo, que aquela corte não se vergaria ao grito (grito?) das ruas.
Mas a sensação é mais de melancolia que de redenção. Melancólico ver o PT jogar sua história no lixo e adotar ladrões de estimação. Nem o DEM fez isso com Demóstenes Torres. Melancólico perceber a chance que foi perdida. Que o que sobrou do governo Lula foi uma presidente que mal sabe falar, enredada num ministério de bufões, mas que será melancolicamente reeleita. Melancólico ver que ainda tem gente que acredita que mesmo com a prisão de seus principais e mais próximos "companheiros", Lula não devia saber de nada.
Comemorar quando a Justiça faz justiça é coisa de república de bananas. Deixemos a festa com os "guerreiros do povo brasileiro". Que ergam os punhos e peçam julgamento - sempre para os outros. A nós restará a tristeza. A tristeza dos que emprestam.
Somos de outra raça. Ainda bem.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Reconsidere, Dr Alexandre

"Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.(...) Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas."
Evangelho segundo S. Mateus 5, 39-41
 
 
  No filme Spartacus, com Kirk Douglas, há uma cena emblemática: os escravos revoltosos, finalmente acossados pelos soldados romanos, escutam o brado do centurião: "Quem de vós sois Spartacus?" O líder da revolução escrava ainda titubeava quando viu um dos seus se levantar e gritar "eu sou Spartacus!" Não deu muito tempo para reação, pois logo outro acorreu "Mentira! Eu sou Spartacus!" e mais outro "Eu sou Spartacus!" e um após outro se levantaram e logo o grupo gritava em uníssono "Eu sou Spartacus!", enquanto o verdadeiro permanecia calado.
 
  Logo depois do voto de Celso de Mello, o blog de Marcelo Centenaro lembrou um discurso proferido por Joseph Brodsky, onde nos explica claramente que o real sentido daqueles versículos do Evangelho de Mateus nos incitavam não à humildade mas sim à resistência. E o melhor caminho para tanto é o individualismo, "alguma coisa que não possa ser compartilhada, como sua própria pele, nem mesmo por uma minoria". Pois o Mal, ele deixa claro, "tem loucura pela solidez. Ele sempre procura os grandes números, o granito confiante, a pureza ideológica, os exércitos bem treinados." Acertadamente ele presume que a atração do Mal por estas coisas "tem a ver com sua insegurança inata." E chega certeiro ao diagnóstico sobre as razões do triunfo do Mal: "E ele triunfa em muitas partes do mundo e dentro de nós mesmos, dados seu volume e intensidade, dado em especial o cansaço dos que a ele se opõem."
 
  Tivemos hoje a renúncia do presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná, Alexandre Blay. Ao ter que conferir a licença para os cubanos poderem exercer a medicina em seu Estado, contrariando todas as determinações de seu e de outros Conselhos acerca deste tipo de caso, e ameaçado por toda uma estrutura subserviente, que vai desde o MST - que invadiu o CRM do Ceará pela resistência deste - até um ordenamento jurídico opressivo, típico de ditaduras, que manda conceder a licença aos cubanos ao mesmo tempo que lhes nega o direito de pedir asilo político, ele capitulou. E tinha razões para tanto. Porém ao tomar tal compreensível decisão ele se põe a serviço da farsa galopante que nos atropela diariamente e vai tentando minar nossa capacidade de reação.
  Os tempos são assustadores, e a construção de uma cultura bolivariana está a todo vapor. Inteligências já começam a ser cooptadas. Temos já Ives Gandra Martins dizendo coisas estranhas sobre o julgamento do Mensalão. Já foi convertido a petista histórico. Cada um depõe suas armas como pode ou como quer. A virulência fanática da argumentação petezóide nos agride, seja a nos chamar de burgueses, fascistas, macacos; seja a nos fazer temer por nossa própria integridade física. O que se vê são blocos rígidos, graníticos. Um exército de anônimos, anulados enquanto pessoas e pensantes apenas em nome de uma causa. Quem discorda é só mais um traidor, que merece por enquanto todo o desprezo. Por enquanto...
 
  O poder desnorteador de um ato individualista - termo desvirtuado pela esquerda como sinônimo de egoísmo - sempre será imenso e eficaz. Faz aumentar exponencialmente a insegurança do Mal. Entregar a outra face, mostrar que aquilo não nos atinge e que estamos dispostos a caminhar o dobro do que estão dispostos a nos impor é a nossa estratégia. Não pegar em foices e facões para enfrentar o MST - nós não sabemos fazer isso. Apenas não consertar a porta arrombada, no aguardo de novas invasões. Venham, pois vamos continuar resistindo. Não repetir palavras de ordem, com olhos esbugalhados e lançando perdigotos, mas lendo, lendo, preparando-se para a contra argumentação embasada, fortalecendo nossas ideias e as tendo se não como ideais, pelo menos como nossas. Legitimamente nossas.
  Não precisamos de tutela nenhuma, precisamos nos colocar para que mais gente não precise. Somos capazes de escolher o que vamos ver, ler, comer, ouvir, por onde navegaremos na rede e nos mares. Queremos um governo que promova a liberdade, inclusive de errar.
  Trazer pobres coitados premidos pela mais longeva e sanguinária ditadura do ocidente e a eles conferir o status de sub-médicos, sem direito nem a ter seu salário integral, sabendo que as famílias que deixaram distantes podem sofrer sanções policiais ante à menor busca de básicos direitos humanos no país novo e querer que as entidades médicas compactuem bovinamente com isso é premissa típica do Mal.
 
  O maniqueísmo está se construindo. Eu topo. Não tenho pudor nem acho pretensão dizer que sou o Bem, e com isso chamar a todos para um mundo de igualdade. Está no discurso de Joseph Brodsky, "o Mal cria raízes quando um homem começa a pensar que é melhor que outro." E quando isso ocorre, apenas ficamos em silêncio. Ao apanharmos, que seja verbalmente, o silêncio como reação e a pronta receptividade a outra pancada "não se limitam a estimular o sentimento de culpa do inimigo - este, o Inimigo consegue aplacar, mas sim submeter suas faculdades à falta de sentido de todo o empreendimento, do mesmo modo de toda produção em massa."
 
  Mas são ações nossas que nos tornearão. Temos que escolher um caminho. O Mal não admite concessões. Não existe um semi-Mal, ou um "Mal de Centro". A ações, enfim são sempre individualistas no caso da turma do Bem.
  Diferente de como foi a ação do presidente Alexandre Blay. Esta foi uma ação individual, por vezes chamada apropriadamente de "foro íntimo".
 
  Volte à sua tribuna, Dr Alexandre. Encare a situação como extrema. Apenas mire nos olhos dos opressores, que estão de lança na mão e leões famintos do lado. Fique firme, se preciso ofertando a outra face. Seja um exemplo a ser seguido.
  E daí, quando lhe perguntarem acintosamente de sua responsabilidade naquele ato de negar as licenças (que foi antes de tudo uma ato de resistência), respire fundo mas não fale. Apenas escute-nos ao fundo, dizendo juntos, com força cada vez mais contagiante: "Eu sou Spartacus!"
 
 
 
 

 


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Não me convidaram para esta festa pobre



"Gosto de ser gente porque a História em que me faço com outros e de cuja feiúra tomo parte, é um tempo de possibilidades, não de determinismos."

Paulo Freire

 
  O argumento é simples: quando quatro juízes, dentre os da turma, decidem pela absolvição do réu, ainda que os outros tenham decidido pela condenação, a decisão deve ser revista. Trata-se da ideia básica que ampara os chamados embargos infringentes. Estão previstos no Estatuto do STF, revisado em 1980. Houve uma lei aprovada pelo Congresso que regulamenta os recursos em Cortes Superiores, aprovada em 1990. Como foi aprovada pelo Congresso é hierarquicamente superior ao estatuto do STF. Esta lei não diz que os tais embargos podem ser usados. Mas também não diz que não podem. E está armada a quizomba.
 
Os votos de Joaquim Barbosa e Luiz Fux foram taxativos tanto ao dizer que os embargos infringentes eram descabidos, quanto ao demolir os argumentos a favor, inclusive com a tese simples de que um tribunal não precisa votar de novo o que já foi devida e exaustivamente votado. Vale a pena dar uma olhada neles, bem como no de Gilmar Mendes. Carmem Lúcia foi sóbria e Marco Aurélio esqueceu um pouco o fair play, mas vamos em frente.
  Nenhuma surpresa quanto à maioria dos outros. Os cãezinhos amestrados do petismo fizeram seu papel. Quem se lembrar da sabatina de Rosa Weber pelo senado - parodiada até pela MTV, quem se lembrar de quem era Dias Tofoli, e continua sendo; quem se lembrar do currículo "vergonha alheia" de Lewandowski e quem não se lembrar de Teori Zavascki vai se lembrar também que desde o acolhimento do Mensalão pelo Procurador Geral da República e sua condução à apreciação pelo STF já se vão seis anos. Vai se lembrar que esta chicana possibilitou a aposentadoria de Ayres Brito e Cezar Peluso, cujos votos condenatórios não deixariam a discussão dos embargos sequer começar. Nenhuma surpresa. Luís Barroso, porém, talvez o único dos indicados pelo petismo com grife, deu uma “calourada” – diz-se nas universidades que por mais que um aluno tenha passado pelo vestibular, no primeiro ano ele emburrece. Pode ser este o fenômeno que ocorreu no voto do Ministro, outrora um dos maiores constitucionalistas brasileiros, admirados por gregos e tucanos. Dias antes da posse, como lembrou Augusto Nunes, Barroso deixou claro que não via como aceitar os embargos, nem achava delicado se contrapor tão diametralmente à postura de Ayres Brito, seu antecessor. Aí no voto... bem, no voto ele “me sórta” que estava com pena das famílias dos acusados...  Coube a Marco Aurélio quebrar-lhe um ovo na testa, chamando-o de “novato”.
 
 A flagrante diferença de nível entre as argumentações contra e a favor dos embargos já dá o tom e dá esperança. Se os contrários aos embargos podem ser acusados de excesso de civismo em detrimento da lei, os que concordam podem também ser acusados de excesso de cinismo em favor da lei.
 
 Vai ficar nas mãos do decano. Celso de Mello teve uma das mais belas defesas do estado de direito e da decência em uma sociedade, nos votos em que condenara os mensaleiros. Concordo que não precisa ouvir o ronco (que ronco?) das ruas. Espero que não ouça o tilintar da máquina registradora. Celso Mello só tem que ouvir Celso de Mello.
 
  Vale lembrar que em 1971 este mesmo Supremo Tribunal Federal considerou constitucional a lei da Censura Prévia, elaborada pelo governo Médici. Ao fim daquela seção, o ministro Adauto Lucio Cardoso levantou-se, jogou sua toga no chão e se retirou do plenário. Em 1994 julgou Fernando Collor e o absolveu por falta de provas. Daquela turma do STF faziam parte Celso de Mello, que absolveu Collor (epa...) e Marco Aurélio, que se declarou impedido por ser primo do réu.
  Não se pode dizer que o Supremo perdeu o respeito em 71, tampouco em 94. Entende-se o clima beligerante do atual momento. Mas, ainda que Celso de Mello aceite os embargos infringentes e mande o julgamento para as calendas, nem assim as coisas não estarão perdidas.
 
  Em primeiro lugar, este julgamento inverteu a densidade dos argumentos. Não só entre os ministros, mas entre as pessoas comuns. Já se encontram mais leitores de Ayn Rand, de Mises, de Ortega e Gassett, de Olavo de Carvalho. Leandro Narloch, Laurentino Gomes, Demétrio Magnoli, Luis Pondé e até o Lobão são também Best Sellers, enquanto o filme do Lula foi um mico, o livro da privataria tucana não foi lido nem pelos petistas, assim como não será a biografia de José Dirceu. Os blogs contestadores são tocados por uma rapaziada bem letrada, mas ao mesmo tempo sarcástica, que esmiúça não só as táticas da esquerda como suas incoerências internas.
  Mesmo a TV a cores na taba dos índios, finalmente programada para só dizer sim – vide o mea culpa da Globo e o editorial de ontem da Folha –  são mais do mesmo.
  As novidades neste processo todo, que pode acabar promovendo os mensaleiros a presidiários ou a mortos-vivos emanadores de enxofre começam por não se ouvir pelas ruas a palavra “inocente”. Nem mesmo o petista mais emperdernido, que nos chama de fascista depois de cinco minutos de discussão vai sustentar tal disparate. Deixem que façam festa. Festa pobre de espírito, caráter e elegância. Já sabemos qual é o negócio e o nome do sócio.
  Mas somos e seremos ainda parte da cara do Brasil. E vamos mostrá-la. Num debate sereno, embasado, contestador, corajoso. Eduquemos nossos filhos, antes que um professor de história aparelhado o eduque. O trabalho é imenso, mas necessário. A história nem tampouco as instituições terminam neste julgamento. É isso que a petezada quer de nós – desânimo.
  Mas não: avante meninos da pátria! Porque esta grande pátria, desimportante, esculhambada, achincalhada e desiludida não será em nenhum instante traída por nós.


domingo, 28 de julho de 2013

Pelo menos não queimaram uma Bíblia...

  Não há porque temer uma discussão sobre religião. Este blog discute política, o que para muitos é algo indiscutível, assim como futebol. Mas nenhum dos três é questão de gosto. Gosto é que não se discute, e há um chavão mais preciso que define a questão ao considerar que cada um tem o seu gosto, mas não o reproduziremos aqui a fim de não chocar tanto.
  A visita do Papa Francisco suscitou, como nenhuma outra, manifestações anti-cristãs. Mais que isso, anti-religiosas. Na mesma medida, vimos exemplos de tolerância vindos até de ateus convictos. Pode ser que a tolerância seja um bem mais natural do ser humano, por isso é mais silenciosa. Meio como a respiração, que não faz barulho ao contrário da tosse. Daí que a intolerância, como todo sintoma de doença, pareça mais estridente e forte no começo, mas vai sendo vencida pela saudável e tácita convivência democrática entre discordantes. De maneira que o saldo, ainda que pareça pender para o outro lado, foi positivo. Não a favor necessariamente do catolicismo, mas do respeito pelas convicções alheias.
  Há uma anedota envolvendo o ex-presidente João Figueiredo. Consta que ele, já general, recebeu um militar chinês em visita. Assustou-se com o despojamento da farda do colega, sem medalhas, condecorações, estrelas, enfim, sem nada que ostentasse o alto posto hierárquico daquele senhor. Figueiredo lhe perguntou a razão de tanto desprendimento, já que seria motivo de orgulho e até de justiça vestir uma farda digna de um general. A resposta teria sido "a farda de um general chinês é assim, para ele não se esquecer de que antes de mais nada é um soldado." Francisco, ao pedir um trono de madeira, ao recusar as vestes vermelhas e douradas, ao preferir a comida das freiras à do Copacabana Palace, talvez esteja querendo nos mostrar que antes de mais nada é um padre. Num primeiro momento parece óbvia, mas é uma escolha também política. Tanto é que, a despeito da virulência das manifestações anti-clericais, a pessoa de Bergoglio parece ter sido poupada de maiores ofensas (Ratzinger chegou a ser chamado de nazista quando veio), mas tal fato se deve mais à figura pessoal do Papa que propriamente a uma guinada de nossa sociedade em direção a uma maior tolerância.
  Talvez por chegar num momento em que alguns barulhentos arrebentam agências bancárias em São Paulo para protestar contra o governador do Rio, a visita papal tenha levado em seu bojo os ventos contemporâneos desta Primavera Brasileira. Porém, a "vergonha do Várti" foi muito mais pela desorganização carioca - que poderia se dar em qualquer cidade do país - do que pela Marcha das Vadias. Uma, por assim dizer, manifestante, reproduzir uma cena d' O Exorcista e se empalar com uma cruz causa menos espécie que o lamaçal de Guaratiba.
  O que os imberbes manifestantes vestidos de ninja não compreendem, talvez por imaturos, deseducados, prepotentes ou tudo isso junto, é que o carnaval deprimente que estão produzindo não demoverá os católicos de sua crença - tampouco a fortalecerá. Nem demoverão os políticos de suas práticas, mas neste caso as fortalecerão. Suas excelências já perceberam que se trata de mais espuma que maré. E vão passear com cachorrinhos de helicóptero, colocar multidões num lugar que até ontem era um mangue, votar pelo fim do foro privilegiado para poderem ser julgados em seus currais eleitorais, submeter peregrinos do mundo todo a um assalto a cada dez minutos, enfiar o Papa num corredor de ônibus, fazer o PIB equivaler à arrecadação de impostos e tomar medidas marqueteiras para que menos pessoas morram em corredores de hospitais.
  O fato de todas estas mazelas serem recentíssimas e terem ocorrido após o início das manifestações só nos mostra que nossos governantes não são de Marte. Eles apenas são a expressão de um povo raso de idéias, de moral e de costumes.
 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

"Mensaleiros na cadeia!"

(Escrito por inspiração das idéias do Dr. Leonardo F. Zimmerman)
 

  Jean Paul Sartre definiu o Maio de 68 na França desta forma numa entrevista dois anos depois: "Ainda estou pensando no que aconteceu, não compreendi muito bem. Não pude entender o que aqueles jovens queriam, então acompanhei como pude. Fui conversar com eles na Sorbonne, mas isso não queria dizer nada." 
  Sartre ia na frente em algumas manifestações e enfrentou a polícia. O general Charles de Gaulle, presidente francês à época, deu ordens para que não prendessem o filósofo. As manifestações uniam estudantes em greve e trabalhadores também em greve. Em uma das maiores passeatas, Daniel Cohen-Bendit, líder estudantil, organizou a distribuição dos manifestantes, e deu o clássico grito "A canalha stalinista vai para o fim do cortejo!" Foi o estopim da briga com o Partido Comunista Francês, que se retirou dos protestos, fazendo com que aquilo naturalmente evoluísse para um movimento apartidário. Ao contrário de Sartre, o presidente de Gaulle entendeu a mensagem que chegava daquele furdunço. Poderia ter convocado um plebiscito para reformar a política. Preferiu convocar eleições mesmo. Se tivessem que tirá-lo do governo, que fosse pelo voto - estadistas geralmente fazem assim. Depois chamou a Confédération Generále du Travail, a CUT deles, e concedeu aumento aos trabalhadores, terminando com a greve. Um mês depois vencia as eleições, indicando para primeiro ministro o conservador George Pompidou.

 Viajemos no tempo, dez anos antes, para a Suécia (tenham paciência comigo...). Final da Copa do Mundo entre o time da casa e o Brasil. A segunda final de nossa seleção, oito anos depois do Maracanazo, que enterrara nossa auto estima. Antes dos cinco minutos do primeiro tempo, a Suécia abre o placar. Um a zero pros caras. O time brasileiro parou atônito por alguns segundos enquanto o estádio em Estocolmo explodia em vibração. De repente todos pareceram acordar e foram correndo buscar a bola dentro do gol de Gilmar, ainda caído. No meio da correria, Didi fez um gesto brando pedindo a bola. Pegou-a e todos foram correndo para o meio do campo. Menos ele. O "Príncipe Etíope", como o chamava Nelson Rodrigues foi caminhando calmamente de cabeça erguida, conduzindo a bola com a mão espalmada, como se a levasse numa bandeja. Naquela curta caminhada até o círculo central, Didi acalmou a todos e o jogo recomeçou com os ânimos serenados. Vavá empatou três minutos depois e o resto a gente já sabe.

  Nas manifestações no Brasil de Junho último, um cartaz chamou atenção: era envergado por respeitáveis senhores de meia para terceira idade e dizia: "Os jovens de 1968 apoiam os jovens de 2013". Sartre morreu sem ter entendido o maio de 68. Esses aí do cartaz irão no mesmo caminho. E não entenderão o junho de 2013. Mas o cartaz fez sentido. Ambos foram movimentos apartidários, baseados na explosão de hormônios e na necessidade de se apanhar da polícia para justificar a própria existência. O espírito sessentaeoitista impregnou este movimento brasileiro de agora e o pôs a perder. O negócio começou a degringolar quando outro cartaz disse "Não é só pelos 20 centavos", e passou a ser por tudo. E para piorar, no governo central temos uma figura decorativa, que mal articula uma frase, à frente de um ministério mastodôntico e fisiológico. Há quem possa sentir falta de um de Gaulle. Mas falta mesmo faz um Didi.

  A atitude de sair correndo a esmo, chutando a bola pra frente para recomeçar logo o jogo, é o melhor caminho para a derrota. Já há a sensação de que tudo não passou de uma marola, um espasmo que gerou reações igualmente espasmódicas do poder central. Pode ser que fosse uma utopia vencer os suecos na casa deles. Mas só seria possível com organização, foco e uma dose saudável de serenidade em meio ao natural arrojo do esporte. Foi isso que Didi quis passar aos companheiros. É perigoso que surja um dono da bola agora, mas a atitude cabe.

  A birra com os políticos e com a política em geral não produziu um slogan. Movimento popular para dar certo no Brasil, precisa de frase pronta, que nada mais é que a expressão do que motiva as pessoas a estarem nas ruas. Foi assim com os últimos levantes de peso em nossa história recente. "Anistia ampla, geral e irrestrita", "Diretas já" e "Fora Collor". Falta alguém explicar porque em nenhuma cartolina apareceu a frase "Mensaleiros na cadeia".
  O Supremo Tribunal Federal já decidiu pela culpa dos mensaleiros. Estão todos soltos, alguns "trabalhando" no Congresso. A melhor das Reformas Políticas começará quando todos forem presos. Pode ser utopia sim. E utopia é antes de tudo crença. Talvez comecemos a entender esses protestos quando considerarmos que foram movidos justamente pela descrença.
  É legal sair às ruas, aquietar a consciência com a idéia de que se está fazendo história. Mas até para isso é necessário método. Não precisa ser nada complexo não. Em lugar nenhum do mundo houve passeata pelo voto distrital misto. Esse movimento das passeatas de junho minguou porque não fez o simples. Exultou-se o apoteótico, o barulho, a irreverência - noves fora os baderneiros - parou-se as avenidas. Mas acabou na quarta-feira de cinzas. Bradou-se contra a política tradicional e contra tudo que está aí, mas os mensaleiros foram deixados em paz.
  Bastava um slogan, repetido como um mantra. José Dirceu e sua corja na cadeia seria sim didático, revolucionário, um feito para lavar a alma de uma geração. Mas por hora vamos de reforma na saúde, que a reforma política morreu com o natimorto plebiscito.
 
  Falando em reforma da saúde, ocorreu-me outra frase para cartolina: "Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são." Essa apareceu em "Macunaíma", de Mário de Andrade. Foi publicado em 1928, 40 anos antes do Maio francês. Lembrei disso agora porque minha cachorrinha está latindo mais que carro de som de sindicato. Ela sempre faz isso quando tem muita formiga no quintal.