segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Fenômeno e o General Romano

  Sinceramente nem vem ao caso as motivações políticas de Ronaldo. Basta que tenha razão. Como discordar dele? As obras para a Copa estão prontas? Foram feitas com dinheiro privado, conforme Lula nos assegurou? Ele irá nadando para a África, conforme nos prometeu, caso a Copa fosse um malogro? Aliás, onde se alugam jumentos para que os torcedores possam chegar aos locais dos jogos? Ficaremos orgulhosos ou envergonhados com este evento?
  Ao que parece, Ronaldo apenas deixou de fingir que não enxergava. Foi premido pelo ronco das ruas. Melhor dizendo, pelo silêncio das ruas quando o assunto é empolgação com a Copa. A pátria não parece mais ser a de chuteiras. Calça as sandálias da sensatez, na qual chegou por puro desalento - mas este não é quase sempre o caminho para a sensatez?
  Na empolgação do mandato que superava a crise do Mensalão, o lulopetismo acenava com o "legado" da Copa, na forma de melhorias de infraestrutura urbana, sem contar o lucro de vários setores. Já se tem como certo que quanto ao setor de turismo, só vai ter lucro o receptivo. A indústria já prevê prejuízo e os serviços não ganharão como esperavam. A infraestrutura... bem, é "babaquice", como candidamente nos lembrou Lula.
 
  Uma das acepções da palavra "legado" vem da Roma antiga: referia-se a um posto militar de alta patente, equivalente a um general que na época comandava uma legião (legatus legionis). Certamente é uma previsão otimista, mas esta Copa talvez nos deixe este tipo de "legado". Pode ser que os brasileiros estejam colocando um torneio de futebol em seu devido lugar, sem que os grandes problemas e questões na nação fiquem em suspenso até que a bola pare.
  Espaço para anarquia vai sempre haver, mesmo que travestida de civilidade. Mas para isso temos a polícia, com legitimidade para garantir a todos, TODOS, os brasileiros seus direitos. Tanto o de se manifestar, quanto o de não se manifestar. Sem falar nos constitucionais direito à propriedade e o de ir e vir. Ainda que para isso tenha que lançar mão da firmeza e até, vá lá, da violência, mostrando a força das nossas instituições.
  Mas de um jeito ou de outro uma parte substancial da população que não se deixa levar pelo ufanismo e patriotada aproveita agora os holofotes do mundo para selar sua insatisfação. Pode ser que os petistas, que tiram proveito político até dos velórios de suas mães, apontem tal efeito como uma "prova do aumento da consciência crítica das massas" e estaria assim chancelada a "política para a educação" do PT.
  Se tal postura crítica representar o legado, ou seja, o norte, o "general" de nossas ações enquanto cidadãos, é possível afirmar que a Copa valeu. Anda bem.
 
  Até porque, mesmo depois de nos livrarmos da caixirola - aquele chocalho de capoeira que Carlinhos Brown tentou nos empurrar, outro legado sempre dirá muito destes tempos atuais: os nomes dos elefantes brancos erguidos em desertos futebolísticos, que de tão vexaminosos nem mereceram as tradicionais alcunhas. A eles não foi conferida a honra nem do clássico "Estádio", tampouco do brasileiríssimo "Campo". Sobrou-lhes o pretensioso e circense "Arena".

 

Bendito calor

 
"Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca".

Apocalipse 3:16

  Várias lições nos deu o ministro Joaquim Barbosa, que se aposentou do Supremo Tribunal Federal. A História vai registrar um tempo em que figurões da República foram presos por corrupção, a partir de um julgamento conduzido estritamente dentro dos ritos legais. Uma tarefa imensa que se incumbiu a Suprema Corte de uma democracia imatura. Pode ser que o país ainda não tenha se dado conta da dimensão do ocorrido, seja pela crônica falta de educação, seja pela igualmente crônica inépcia institucional que continua nos assolando malgrado o justo enjaulamento de Dirceu e comparsas.

  Há um ano várias cidades do país se sacudiam com os protestos de Junho. Nenhum nome colou para designar aquele período, o que nem é surpreendente. As lideranças da época já foram esquecidas, como os tais do Movimento Passe Livre que certamente se encontra adormecido em uma gaveta partidária pronto a ser colocado em prática quando a baderna interessar a mais uma manobra. Já nos esquecemos até do nome daquele moço com lábios bem proeminentes, líder de algum outro "coletivo". Da mesma forma, em breve nos esqueceremos deste menino, filho de um professor titular de medicina da USP, que lidera um bando que se diz sem-teto. Celebridades dignas de um BBB, pretensamente com mais conteúdo porém igualmente prenhes de espuma. 

  Por todo o país sobrou a grita contra a corrupção, mas pode ser que mesmo o manifestante mais empedernido sequer tenha cogitado escrever "mensaleiros na cadeia" em uma cartolina. O ronco das ruas foi "contra tudo de ruim que está aí desde o Brasil-colônia" e cá pra nós contra os vinte centavos de aumento no transporte público - sem contar a apelação fácil para os hospitais e escolas padrão-Fifa.

  O STF, ao contrário do que delirou Celso de Melo em seu voto aceitando os embargos infringentes, não foi diretamente pressionado. A postura de Joaquim Barbosa se anunciou desde que começou a dar indícios do que seria seu relatório, mesmo que tenha sido cobrado do contrário com as inacreditáveis alusões ao dever de gratidão por conta de sua nomeação pelo sinhozinho Lula.

  O por hora aposentado Joaquim Barbosa merece ser lembrado pela "ira santa e saúde civil". Por ter se entregue ao extremo calor revolucionário quando até poderia ter se deixado levar pela temperatura morna de um tribunal superior, confundida com temperança.

  Sua principal lição foi ter-nos mostrado que revoluções podem ser feitas não derrubando instituições, mas as fortalecendo. Que grandes paradigmas podem ser soterrados com as armas da democracia e do estado de direito. Que faz bem a uma sociedade quando alguém tem a coragem de abalar estruturas seculares registrando de cara limpa suas ações nos autos, e não cobrindo o rosto com uma máscara ninja. Nesta defesa implacável e na denúncia do cinismo regimental de alguns juízes vendidos residiu o calor de sua atuação - noves fora seu temperamento mercurial.

  Joaquim Barbosa sai do Supremo com a serenidade que só a força dos justos confere. Não precisa se intitular guerreiro, nem gritar palavras de ordem, tampouco cerrar e erguer os punhos numa desesperada caricatura.

  De erguidas bastam suas convicções, sua consciência e sua cabeça.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Lula e o Princípio de Pareto

"Há três tipos de mentiras: as mentiras, as mentiras deslavadas e as estatísticas"
Benjamin Disraeli
 
 
  Há um conceito em economia chamado "Princípio de Pareto", o qual postula que para muitos fenômenos 80% das consequências advém de 20% das causas. Trata-se de uma técnica estatística que auxilia na tomada de decisão. Grosso modo, por exemplo, se um comércio não pode ter todos os itens líderes de mercado em seu nicho, ele dispõe de 20% dos mais rentáveis que darão 80% do lucro. Este princípio tem vários desdobramentos, mas serve para nos mostrar o flagrante desequilíbrio entre causas e resultados. É uma eficaz ferramenta para definir prioridades na correção de defeitos. Seus desdobramentos naturais foram a chamada "Curva ABC" e o "Diagrama de Pareto". Enfim, a moral da história é o gestor saber que a maioria das perdas é devida à minoria das causas.
  Lula hoje deu uma entrevista, para variar em algum cafundó chique do mundo, para dizer de novo que o Mensalão não existiu. Disse que não vai discutir a decisão da Suprema Corte, que a história vai provar que tralalá, que o tempo se encarregará de trelelê, aquela conversinha de sempre. Chamou atenção o arremate: "O tempo vai se encarregar de mostrar que você teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica."
  É o tipo da frase que tem que ser lida mil vezes. Se o Mensalão não existiu, o correto seria que 100% da decisão do STF tenha sido política. Mas... se 20% da decisão foi de base jurídica, como reconhece o próprio Lula, conclui-se que base jurídica havia, donde o Mensalão existiu... De duas, uma: ou nosso douto ex-presidente aplicou o princípio de Pareto para reconhecer que uma decisão jurídica causou um estrago imenso na política do PT, ou se tratou de mais uma das muitas estatísticas eivadas da mais típica velhacaria deste que de tudo soube e tudo viu desde o começo.
  A boa notícia é que Lula já arregou para 20. Começa a achar que um quinto das barbaridades que a imprensa golpista publicava era verdade. Ou talvez reconheça que as nomeações petistas ao STF foram políticas e não jurídicas. Dos 11 ministros atuais, oito foram nomeados pelo petismo e apenas três por outros presidentes. Dá praticamente os 80/20 do já descrito Princípio. Temos como certa que a atuação de Lewandowski e Toffoli  foram pouco jurídicas para dizer o mínimo. Justiça seja feita a Joaquim Barbosa, Carmen Lúcia e Luís Fux, também nomeados pelo PT.
  Sinceramente, o único voto nos moldes colocados por Lula foi o de Celso de Melo (indicado por Sarney) ao aceitar os embargos infringentes.
   Finalmente, analisando com cuidado as calculadamente distantes declarações de Lula sobre o Mensalão, temos que elas seguiram bem a sequência de Disraeli: primeiro uma mentira. Depois uma mentira deslavada. E agora uma estatística.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Um bom dia para recomeçar

"Vossas Excelências tentaram passar o Primeiro de Abril com uma antecedência de 24 horas. (...) Mercê de Deus, está salva a democracia neste país!"
Doutel de Andrade
 
 
  Já passava da meia-noite do dia 31 de março de 1964 quando o deputado Doutel de Andrade, do PTB de Santa Catarina, fez um inflamado pronunciamento na tribuna da Câmara dos Deputados. Getulista e depois naturalmente janguista, ele tripudiava sobre a ameaça do golpe militar, que a rigor se deu no dia seguinte mesmo. Assim como Doutel, muitos concebiam um governo sanguinário como o de Getúlio Vargas - que matou, torturou, censurou e ceifou as liberdades mais que qualquer outro governo brasileiro, mas não admitiam outra ditadura.
  Até hoje se tem o período Vargas como redentor em nossa história, algo típico de um povo que não conhece a própria história. E tem-se a Ditadura Militar como nosso período mais negro. Ditaduras sempre são ruins, péssimas. Desnorteiam uma ou mais gerações. Minam as esperanças, bestificam um povo, mesmerizam nossas emoções. Hoje, exatos cinquenta anos depois do golpe de 64, é curioso perceber que não temos registrada a versão e razões dos vencedores - fato único numa historiografia de qualquer tempo, de qualquer nação. A história deste período, especialmente, foi e é interpretada pela dialética marxista dos perdedores. Daí o ranço revanchista que acompanha qualquer análise, revestido por isso de uma monocromática interpretação que não admite contestação sob pena de se considerar o contestador um adepto da coerção fardada.
  Por alguma razão, nas barbas da ditadura cresceram e se forjaram pela esquerda os departamentos de Ciências Humanas das grandes universidades, os quais ainda parecem viver naquela época. Cuidam de formar revolucionários com a faca ideológica nos dentes, e não de formar pensadores. Tais bases também reverteram na formação de gerações de estudantes do ensino fundamental e médio e estabeleceram convicções que fazem mal ao debate político no país.
  Sabemos quem foi Marx, Gramsci, Foucault. Não temos idéia de quem foram Mises, Hayek ou Ortega e Gasset. Stalin, Che Guevara, Mao Tse Tung e outros desta laia foram genocidas. Mas não é o que nos ensinam. Chegamos até o vestibular respondendo em provas de história aquilo que era a "verdade" para um tipo de corrente ideológica, que forneceu o caldo onde cresceu a convicção que ser de esquerda é ser legal e o resto é ditadura. Achamos que guerrilheiros como Dilma Roussef, José Dirceu e Genoíno estavam lutando pela democracia. Queriam na verdade outro totalitarismo, experimentado por frações da humanidade da forma mais cruel possível.
  Das muitas heranças que a Ditadura Militar nos legou, tenho que esta é a mais prejudicial - fora as vidas que se perderam. Esta herança formou uma geração de cidadãos pensos à esquerda, alçada à categoria de pensamento único. Determinou uma lavagem cerebral sem precedentes, que está na raiz desde a legislação que considera todo criminoso um coitadinho até as invasões de reitoria por filhinhos de papai que julgam estarem ali fazendo sua revolução.
  Os perdedores estão, enfim, no poder federal hoje. Deixarão como legado o mensalão, as pedras fundamentais inauguradas por Lula, o assistencialismo eleitoreiro levado às últimas potências, a Petrobrás em estado falimentar. Há os que seguem a corriola mesmo assim, alheios à realidade. Fecham os olhos para o ridículo da situação e se prestam cada vez mais a atos igualmente ridículos para justificar sua missão revolucionária.
 

  Este Blog sofreu um ataque da chamada MAV - Militância em Ambientes Virtuais. É um, para usar a nomenclatura deles, "coletivo" onde pessoas pagas com dinheiro público derrubam sites e blogs que não rezam por sua cartilha. É típico desta gente recrutar idiotas com cérebro lavado para intimidar opositores. Na Venezuela temos os Motoqueiros do Maduro, que matam mesmo. Tivemos os "tonton macoutes" no Haiti, altamente sanguinários. Aqui no Brasil, por enquanto, vamos de MAV mesmo.
  Por alguns dias eu não conseguia manejar o "Nova Trincheira", pois travava. Procurei gente que entende e me disseram que havia sido hackeado. Algumas mensagens ameaçadoras me fizeram parar, mais por preguiça que por medo. Neste tempo fora do ar, fiquei pensando que democracia é esta. As milícias da MAV são controladas por Franklin Martins e Gilberto Carvalho. O primeiro participou do sequestro ao embaixador americano, contado em "O que é isso, companheiro?". O segundo foi seminarista, ligado à Pastoral Operária. Gente idealista na juventude. Que cultivava o ideal de fazer valer sua vontade mesmo à custa de intimidação alheia.
  Meio século depois e a farsa se repete como farsa no Brasil. Já estamos vivendo a censura, a época das grandes obras superfaturadas com dinheiro público, a intimidação de contrários pela força.
  Este blog, que eu acreditava ser conhecido e tolerado apenas por amigos, ressurge hoje. Logo no dia em que lembramos uma parte de nossa história que preferíamos poder esquecer. Mas que nos é imposta diuturnamente na forma das mesmas práticas sub-reptícias daquele período. Não há tortura, mas há intolerância institucional. Não há "ame ou deixe-o" mas há "nunca antes neste país". Não há políticos cassados, mas há políticos comprados. Não há censura - direta - à imprensa, mas há coerção, como a que sofri.
  Enfim, os tempos são menos bicudos. Por enquanto, mercê de Deus e graças à vigilância de um contingente cada vez maior de vozes discordantes, a democracia está salva neste país. Voltemos à Trincheira para assumir nosso posto. Ao contrário de 50 anos atrás, a democracia assim nos permite.
  É um bom dia, sem dúvida, para recomeçar.


sábado, 16 de novembro de 2013

Maneiras rasgadas e francas

Vendo a reação dos mensaleiros José Dirceu e José Genoíno ao se entregarem à polícia, ocorreu-me um trecho de um conto de Machado de Assis chamado "O Lapso". Ele cita uma teoria de Charles Lamb, um ensaísta inglês, que dizia haver "duas grandes raças humanas - a dos homens que emprestam e a dos que pedem emprestado. A primeira contrasta pela tristeza do gesto com as maneiras rasgadas e francas da segunda."
Estes senhores tomaram emprestado não só nosso dinheiro. Tomaram também, a fundo perdido, muito do nosso respeito pela política. O principal argumento dos petistas empedernidos para se defender do mensalão é que "todo mundo rouba". Devem achar que atirar lama os defende de alguma coisa. Não vão descansar enquanto o suposto "mensalão Tucano" não for completamente julgado. Chamei de suposto para manter a coerência, visto que o mensalão Petista foi chamado de suposto até ser confirmado pelo STF. Já houve, aliás, uma condenação, neste que se configura como um rascunho muito bem urdido do que viria a ser o mensalão Petista, tanto na operação quanto na atuação da justiça: Nélio Brant, ex-diretor do Banco Rural, foi condenado a nove anos de cana, mas recorre em liberdade. Como a denúncia se deu antes do esquema petista, este processo envolvendo a campanha tucana se mostra com um desenrolar mais lento ainda. Bonito de se ver é a petezada reclamando da lentidão. Citemos Lewandovski: "Estamos com pressa de quê?"
Cinismos a parte, o julgamento da ação penal 470 caminha para seu cabo deixando um rastro de justiça. Levou um tempo imenso. Deu-se ampla voz ao contraditório. Respeitaram os ditames regimentais e até os nem tão regimentais assim - caso dos embargos infringentes, que foram aceitos para os crimes de formação de quadrilha, mas não para os de corrupção. Deixou-se claro, claríssimo, que aquela corte não se vergaria ao grito (grito?) das ruas.
Mas a sensação é mais de melancolia que de redenção. Melancólico ver o PT jogar sua história no lixo e adotar ladrões de estimação. Nem o DEM fez isso com Demóstenes Torres. Melancólico perceber a chance que foi perdida. Que o que sobrou do governo Lula foi uma presidente que mal sabe falar, enredada num ministério de bufões, mas que será melancolicamente reeleita. Melancólico ver que ainda tem gente que acredita que mesmo com a prisão de seus principais e mais próximos "companheiros", Lula não devia saber de nada.
Comemorar quando a Justiça faz justiça é coisa de república de bananas. Deixemos a festa com os "guerreiros do povo brasileiro". Que ergam os punhos e peçam julgamento - sempre para os outros. A nós restará a tristeza. A tristeza dos que emprestam.
Somos de outra raça. Ainda bem.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Reconsidere, Dr Alexandre

"Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.(...) Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas."
Evangelho segundo S. Mateus 5, 39-41
 
 
  No filme Spartacus, com Kirk Douglas, há uma cena emblemática: os escravos revoltosos, finalmente acossados pelos soldados romanos, escutam o brado do centurião: "Quem de vós sois Spartacus?" O líder da revolução escrava ainda titubeava quando viu um dos seus se levantar e gritar "eu sou Spartacus!" Não deu muito tempo para reação, pois logo outro acorreu "Mentira! Eu sou Spartacus!" e mais outro "Eu sou Spartacus!" e um após outro se levantaram e logo o grupo gritava em uníssono "Eu sou Spartacus!", enquanto o verdadeiro permanecia calado.
 
  Logo depois do voto de Celso de Mello, o blog de Marcelo Centenaro lembrou um discurso proferido por Joseph Brodsky, onde nos explica claramente que o real sentido daqueles versículos do Evangelho de Mateus nos incitavam não à humildade mas sim à resistência. E o melhor caminho para tanto é o individualismo, "alguma coisa que não possa ser compartilhada, como sua própria pele, nem mesmo por uma minoria". Pois o Mal, ele deixa claro, "tem loucura pela solidez. Ele sempre procura os grandes números, o granito confiante, a pureza ideológica, os exércitos bem treinados." Acertadamente ele presume que a atração do Mal por estas coisas "tem a ver com sua insegurança inata." E chega certeiro ao diagnóstico sobre as razões do triunfo do Mal: "E ele triunfa em muitas partes do mundo e dentro de nós mesmos, dados seu volume e intensidade, dado em especial o cansaço dos que a ele se opõem."
 
  Tivemos hoje a renúncia do presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná, Alexandre Blay. Ao ter que conferir a licença para os cubanos poderem exercer a medicina em seu Estado, contrariando todas as determinações de seu e de outros Conselhos acerca deste tipo de caso, e ameaçado por toda uma estrutura subserviente, que vai desde o MST - que invadiu o CRM do Ceará pela resistência deste - até um ordenamento jurídico opressivo, típico de ditaduras, que manda conceder a licença aos cubanos ao mesmo tempo que lhes nega o direito de pedir asilo político, ele capitulou. E tinha razões para tanto. Porém ao tomar tal compreensível decisão ele se põe a serviço da farsa galopante que nos atropela diariamente e vai tentando minar nossa capacidade de reação.
  Os tempos são assustadores, e a construção de uma cultura bolivariana está a todo vapor. Inteligências já começam a ser cooptadas. Temos já Ives Gandra Martins dizendo coisas estranhas sobre o julgamento do Mensalão. Já foi convertido a petista histórico. Cada um depõe suas armas como pode ou como quer. A virulência fanática da argumentação petezóide nos agride, seja a nos chamar de burgueses, fascistas, macacos; seja a nos fazer temer por nossa própria integridade física. O que se vê são blocos rígidos, graníticos. Um exército de anônimos, anulados enquanto pessoas e pensantes apenas em nome de uma causa. Quem discorda é só mais um traidor, que merece por enquanto todo o desprezo. Por enquanto...
 
  O poder desnorteador de um ato individualista - termo desvirtuado pela esquerda como sinônimo de egoísmo - sempre será imenso e eficaz. Faz aumentar exponencialmente a insegurança do Mal. Entregar a outra face, mostrar que aquilo não nos atinge e que estamos dispostos a caminhar o dobro do que estão dispostos a nos impor é a nossa estratégia. Não pegar em foices e facões para enfrentar o MST - nós não sabemos fazer isso. Apenas não consertar a porta arrombada, no aguardo de novas invasões. Venham, pois vamos continuar resistindo. Não repetir palavras de ordem, com olhos esbugalhados e lançando perdigotos, mas lendo, lendo, preparando-se para a contra argumentação embasada, fortalecendo nossas ideias e as tendo se não como ideais, pelo menos como nossas. Legitimamente nossas.
  Não precisamos de tutela nenhuma, precisamos nos colocar para que mais gente não precise. Somos capazes de escolher o que vamos ver, ler, comer, ouvir, por onde navegaremos na rede e nos mares. Queremos um governo que promova a liberdade, inclusive de errar.
  Trazer pobres coitados premidos pela mais longeva e sanguinária ditadura do ocidente e a eles conferir o status de sub-médicos, sem direito nem a ter seu salário integral, sabendo que as famílias que deixaram distantes podem sofrer sanções policiais ante à menor busca de básicos direitos humanos no país novo e querer que as entidades médicas compactuem bovinamente com isso é premissa típica do Mal.
 
  O maniqueísmo está se construindo. Eu topo. Não tenho pudor nem acho pretensão dizer que sou o Bem, e com isso chamar a todos para um mundo de igualdade. Está no discurso de Joseph Brodsky, "o Mal cria raízes quando um homem começa a pensar que é melhor que outro." E quando isso ocorre, apenas ficamos em silêncio. Ao apanharmos, que seja verbalmente, o silêncio como reação e a pronta receptividade a outra pancada "não se limitam a estimular o sentimento de culpa do inimigo - este, o Inimigo consegue aplacar, mas sim submeter suas faculdades à falta de sentido de todo o empreendimento, do mesmo modo de toda produção em massa."
 
  Mas são ações nossas que nos tornearão. Temos que escolher um caminho. O Mal não admite concessões. Não existe um semi-Mal, ou um "Mal de Centro". A ações, enfim são sempre individualistas no caso da turma do Bem.
  Diferente de como foi a ação do presidente Alexandre Blay. Esta foi uma ação individual, por vezes chamada apropriadamente de "foro íntimo".
 
  Volte à sua tribuna, Dr Alexandre. Encare a situação como extrema. Apenas mire nos olhos dos opressores, que estão de lança na mão e leões famintos do lado. Fique firme, se preciso ofertando a outra face. Seja um exemplo a ser seguido.
  E daí, quando lhe perguntarem acintosamente de sua responsabilidade naquele ato de negar as licenças (que foi antes de tudo uma ato de resistência), respire fundo mas não fale. Apenas escute-nos ao fundo, dizendo juntos, com força cada vez mais contagiante: "Eu sou Spartacus!"
 
 
 
 

 


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Não me convidaram para esta festa pobre



"Gosto de ser gente porque a História em que me faço com outros e de cuja feiúra tomo parte, é um tempo de possibilidades, não de determinismos."

Paulo Freire

 
  O argumento é simples: quando quatro juízes, dentre os da turma, decidem pela absolvição do réu, ainda que os outros tenham decidido pela condenação, a decisão deve ser revista. Trata-se da ideia básica que ampara os chamados embargos infringentes. Estão previstos no Estatuto do STF, revisado em 1980. Houve uma lei aprovada pelo Congresso que regulamenta os recursos em Cortes Superiores, aprovada em 1990. Como foi aprovada pelo Congresso é hierarquicamente superior ao estatuto do STF. Esta lei não diz que os tais embargos podem ser usados. Mas também não diz que não podem. E está armada a quizomba.
 
Os votos de Joaquim Barbosa e Luiz Fux foram taxativos tanto ao dizer que os embargos infringentes eram descabidos, quanto ao demolir os argumentos a favor, inclusive com a tese simples de que um tribunal não precisa votar de novo o que já foi devida e exaustivamente votado. Vale a pena dar uma olhada neles, bem como no de Gilmar Mendes. Carmem Lúcia foi sóbria e Marco Aurélio esqueceu um pouco o fair play, mas vamos em frente.
  Nenhuma surpresa quanto à maioria dos outros. Os cãezinhos amestrados do petismo fizeram seu papel. Quem se lembrar da sabatina de Rosa Weber pelo senado - parodiada até pela MTV, quem se lembrar de quem era Dias Tofoli, e continua sendo; quem se lembrar do currículo "vergonha alheia" de Lewandowski e quem não se lembrar de Teori Zavascki vai se lembrar também que desde o acolhimento do Mensalão pelo Procurador Geral da República e sua condução à apreciação pelo STF já se vão seis anos. Vai se lembrar que esta chicana possibilitou a aposentadoria de Ayres Brito e Cezar Peluso, cujos votos condenatórios não deixariam a discussão dos embargos sequer começar. Nenhuma surpresa. Luís Barroso, porém, talvez o único dos indicados pelo petismo com grife, deu uma “calourada” – diz-se nas universidades que por mais que um aluno tenha passado pelo vestibular, no primeiro ano ele emburrece. Pode ser este o fenômeno que ocorreu no voto do Ministro, outrora um dos maiores constitucionalistas brasileiros, admirados por gregos e tucanos. Dias antes da posse, como lembrou Augusto Nunes, Barroso deixou claro que não via como aceitar os embargos, nem achava delicado se contrapor tão diametralmente à postura de Ayres Brito, seu antecessor. Aí no voto... bem, no voto ele “me sórta” que estava com pena das famílias dos acusados...  Coube a Marco Aurélio quebrar-lhe um ovo na testa, chamando-o de “novato”.
 
 A flagrante diferença de nível entre as argumentações contra e a favor dos embargos já dá o tom e dá esperança. Se os contrários aos embargos podem ser acusados de excesso de civismo em detrimento da lei, os que concordam podem também ser acusados de excesso de cinismo em favor da lei.
 
 Vai ficar nas mãos do decano. Celso de Mello teve uma das mais belas defesas do estado de direito e da decência em uma sociedade, nos votos em que condenara os mensaleiros. Concordo que não precisa ouvir o ronco (que ronco?) das ruas. Espero que não ouça o tilintar da máquina registradora. Celso Mello só tem que ouvir Celso de Mello.
 
  Vale lembrar que em 1971 este mesmo Supremo Tribunal Federal considerou constitucional a lei da Censura Prévia, elaborada pelo governo Médici. Ao fim daquela seção, o ministro Adauto Lucio Cardoso levantou-se, jogou sua toga no chão e se retirou do plenário. Em 1994 julgou Fernando Collor e o absolveu por falta de provas. Daquela turma do STF faziam parte Celso de Mello, que absolveu Collor (epa...) e Marco Aurélio, que se declarou impedido por ser primo do réu.
  Não se pode dizer que o Supremo perdeu o respeito em 71, tampouco em 94. Entende-se o clima beligerante do atual momento. Mas, ainda que Celso de Mello aceite os embargos infringentes e mande o julgamento para as calendas, nem assim as coisas não estarão perdidas.
 
  Em primeiro lugar, este julgamento inverteu a densidade dos argumentos. Não só entre os ministros, mas entre as pessoas comuns. Já se encontram mais leitores de Ayn Rand, de Mises, de Ortega e Gassett, de Olavo de Carvalho. Leandro Narloch, Laurentino Gomes, Demétrio Magnoli, Luis Pondé e até o Lobão são também Best Sellers, enquanto o filme do Lula foi um mico, o livro da privataria tucana não foi lido nem pelos petistas, assim como não será a biografia de José Dirceu. Os blogs contestadores são tocados por uma rapaziada bem letrada, mas ao mesmo tempo sarcástica, que esmiúça não só as táticas da esquerda como suas incoerências internas.
  Mesmo a TV a cores na taba dos índios, finalmente programada para só dizer sim – vide o mea culpa da Globo e o editorial de ontem da Folha –  são mais do mesmo.
  As novidades neste processo todo, que pode acabar promovendo os mensaleiros a presidiários ou a mortos-vivos emanadores de enxofre começam por não se ouvir pelas ruas a palavra “inocente”. Nem mesmo o petista mais emperdernido, que nos chama de fascista depois de cinco minutos de discussão vai sustentar tal disparate. Deixem que façam festa. Festa pobre de espírito, caráter e elegância. Já sabemos qual é o negócio e o nome do sócio.
  Mas somos e seremos ainda parte da cara do Brasil. E vamos mostrá-la. Num debate sereno, embasado, contestador, corajoso. Eduquemos nossos filhos, antes que um professor de história aparelhado o eduque. O trabalho é imenso, mas necessário. A história nem tampouco as instituições terminam neste julgamento. É isso que a petezada quer de nós – desânimo.
  Mas não: avante meninos da pátria! Porque esta grande pátria, desimportante, esculhambada, achincalhada e desiludida não será em nenhum instante traída por nós.